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titulo: "Filtro de Areia Lento (Biosand) — Construção Detalhada"
categoria: agua
tags: [survival, agua, filtro, biosand, areia, tratamento, construcao]
prioridade: alta
status: rascunho
atualizado: 2026-08-03
arquivo_principal: "[[03_agua]]"
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# Filtro de Areia Lento (Biosand) — Construção Detalhada

> Este guia expande a seção 2.2 do arquivo principal [[03_agua]] com instruções completas de construção, operação e manutenção do filtro de areia lento (tecnologia CAWST/David Manz), incluindo diagramas ASCII, listas de materiais com medidas métricas exatas, protocolos de teste de areia sem laboratório e adaptações específicas para a região de Porto Alegre (RS).

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## 1. Visão Geral

### 1.1 O que é o filtro biosand?

O filtro de areia lento, também conhecido como **filtro biosand** ou **filtro CAWST** (Centre for Affordable Water and Sanitation Technology), é uma adaptação doméstica dos filtros de areia lentos municipais — a mesma tecnologia usada por estações de tratamento de água há mais de 200 anos. O design moderno para uso familiar foi desenvolvido pelo **Dr. David Manz** (Universidade de Calgary, Canadá) na década de 1990 e disseminado globalmente pela organização **CAWST**.

Diferentemente de filtros rápidos que apenas coam partículas, o filtro biosand depende de **processos biológicos** que ocorrem dentro da camada de areia. Uma comunidade de microrganismos benéficos — incluindo bactérias, protozoários, algas e fungos — se estabelece na superfície e nos primeiros centímetros da areia, formando um ecossistema microscópico que **preda, compete com e digere patógenos** presentes na água.

A tecnologia é **de código aberto**: planos, manuais e treinamentos da CAWST são distribuídos gratuitamente, e o design não é protegido por patentes. Milhões de unidades operam em mais de 70 países, da África Subsaariana ao Sudeste Asiático e América Latina.

### 1.2 Como funciona — As 4 camadas

O filtro biosand opera por **gravidade**, sem necessidade de eletricidade, bombas ou peças móveis. A água é despejada no topo e flui lentamente através das camadas:

```
                     ╔══════════════════════╗
  ÁGUA BRUTA ──────► ║   PLACA DIFUSORA    ║  (protege biolayer de perturbação)
                     ╠══════════════════════╣
                     ║                      ║
    NÍVEL DA ÁGUA    ║  ÁGUA SOBRENADANTE  ║  (5 cm acima da areia)
    (mantido 5 cm    ║                      ║
    acima da areia)  ╠══════════════════════╣
                     ║                      ║
                     ║   CAMADA BIOLÓGICA   ║  ← SCHMUTZDECKE (1-3 cm)
                     ║  (schmutzdecke)      ║     Predação, competição, digestão
                     ║                      ║     de patógenos
                     ╠══════════════════════╣
                     ║                      ║
                     ║                      ║
                     ║   AREIA FINA         ║  ← 40-55 cm
                     ║   (0,15-0,30 mm)     ║     Filtração mecânica + adsorção
                     ║                      ║     + ação biológica nos poros
                     ║                      ║
                     ║                      ║
                     ╠══════════════════════╣
                     ║  CASCALHO FINO       ║  ← 5 cm (1,5-6 mm)
                     ║  (areia grossa)       ║     Separa areia da camada inferior
                     ╠══════════════════════╣
                     ║  BRITA MÉDIA         ║  ← 5 cm (6-12 mm)
                     ║                      ║     Drenagem + separação
                     ╠══════════════════════╣
                     ║  BRITA GROSSA        ║  ← 5 cm (12-18 mm)
                     ║                      ║     Camada de drenagem inferior
                     ╠══════════════════════╣
                     ║  PLACA DE DRENAGEM   ║  ← Placa perfurada + tubo de saída
                     ║  (com perfurações)    ║
                     ╚══════════════════════╝
                                                  │
                                                  │  TUBO DE SAÍDA
                                                  │  (PVC ½" ou ¾")
                                                  │
                                                  ▼
                                            ÁGUA FILTRADA
```

#### Camada 1 — Biolayer / Schmutzdecke (1–3 cm)

A **schmutzdecke** (alemão para "camada de sujeira", mas que na verdade é a camada mais importante do filtro) é um biofilme complexo que se forma na superfície da areia durante o período de maturação. Contém:

- **Bactérias predadoras** que consomem bactérias patogênicas
- **Protozoários** que se alimentam de bactérias e vírus
- **Algas** (se houver luz) que produzem oxigênio, mantendo o ambiente aeróbico
- **Fungos** que decompõem matéria orgânica
- **Polissacarídeos extracelulares** (substância gelatinosa) que grudam partículas e patógenos

Esta camada é **viva** e é o coração do filtro. Se secar, morre. Se for perturbada (jato direto de água), leva dias ou semanas para se recuperar.

#### Camada 2 — Areia fina (40–55 cm)

A areia é o meio filtrante principal. Os grãos devem ter **tamanho efetivo (D10) de 0,15–0,30 mm** — nem muito finos (entopem), nem muito grossos (não retêm patógenos). O que acontece nesta camada:

- **Filtração física:** partículas maiores que os poros entre grãos ficam retidas
- **Adsorção:** patógenos grudam nas superfícies dos grãos de areia (forças de van der Waals)
- **Sedimentação nos poros:** partículas se depositam nos espaços entre grãos
- **Ação biológica nos poros:** microrganismos benéficos colonizam os poros e continuam o trabalho da schmutzdecke

A profundidade de 40–55 cm é crítica: estudos da CAWST mostraram que o biolayer + 40 cm de areia removem ~99% de protozoários e 90–99% de bactérias.

#### Camada 3 — Cascalho separador (5 cm, 1,5–6 mm)

Areia grossa ou cascalho muito fino que impede que a areia fina migre para as camadas de drenagem inferiores e obstrua o sistema.

#### Camada 4 — Brita de drenagem (10 cm total, em 2 subcamadas)

- **Subcamada superior:** brita média (6–12 mm, ~5 cm)
- **Subcamada inferior:** brita grossa (12–18 mm, ~5 cm)

Estas camadas criam um espaço poroso no fundo do filtro que coleta a água filtrada e a conduz até o tubo de saída. A placa de drenagem (disco perfurado no fundo) distribui o fluxo uniformemente e evita que a brita bloqueie o tubo.

### 1.3 O que o filtro biosand remove

| Contaminante | Eficiência de remoção | Mecanismo principal |
|---|---|---|
| Protozoários (Giardia, Cryptosporidium) | **>99%** (até 99,9%) | Filtração física + predação no biolayer |
| Bactérias (E. coli, Vibrio, Salmonella) | **90–99%** | Predação + adsorção + competição |
| Vírus (hepatite A, rotavírus, norovírus) | **80–90%** | Adsorção + predação por protozoários |
| Turbidez (partículas em suspensão) | **>95%** (água sai cristalina) | Filtração física |
| Ferro e manganês | **70–90%** | Oxidação biológica + precipitação |
| Matéria orgânica | **60–80%** | Decomposição biológica |
| Helmintos (ovos de lombriga, etc.) | **>99%** | Filtração física (ovos são grandes: 20–80 µm) |

> ⚠️ **O filtro biosand NÃO remove:** produtos químicos dissolvidos, metais pesados, sais, agrotóxicos, arsênio, flúor, benzeno ou outros solventes orgânicos. Para estes contaminantes, veja a Seção 6 (Limitações de Desempenho) e combine com carvão ativado ou destilação.

### 1.4 Vantagens do filtro biosand sobre outros métodos

| Característica | Filtro biosand | Fervura | SODIS | Cloro |
|---|---|---|---|---|
| Produção contínua | ✅ 20–40 L/hora | ❌ Batelada | ❌ 1-2 L/dia/garrafa | ❌ Batelada |
| Remove turbidez | ✅ Excelente | ❌ Não | ❌ Não | ❌ Não |
| Remove químicos | ❌ Não | ❌ Não | ❌ Não | ❌ Não |
| Custo operacional | ✅ Zero (só manutenção) | ❌ Lenha/combustível | ✅ Zero | ❌ Produto químico |
| Requer insumos externos | ✅ Não | ❌ Combustível | ✅ Não | ❌ Cloro |
| Depende de sol | ✅ Não | ✅ Não | ❌ Sim | ✅ Não |
| Vida útil | ✅ 2-3 anos (areia) / 10+ anos (estrutura) | N/A | 6-12 meses (garrafas) | 6-12 meses (cloro degrada) |
| Sabor da água | ✅ Natural, agradável | Plano (sem oxigênio) | Levemente alterado | Gosto de cloro |
| Risco de re-contaminação | ✅ Baixo (proteção residual parcial) | Alto (após esfriar) | Baixo (armazenada na garrafa) | Alto (cloro evapora) |

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## 2. Planos de Construção Detalhados

### 2.1 Tamanhos de filtro

Apresentamos dois tamanhos, adequados para diferentes cenários no contexto do RS:

| Modelo | Recipiente | Altura de areia | Produção típica | Atende | Material principal |
|---|---|---|---|---|---|
| **Familiar** | Tambor 200 L | 50 cm | 20–40 L/hora | 5–15 pessoas | Tambor de aço ou polietileno |
| **Comunitário** | 2 ou mais tambores 200 L em paralelo | 50 cm cada | 40–80 L/hora | 20–50 pessoas | Múltiplos tambores com manifold |

> 📐 **Regra prática:** cada centímetro de altura de areia produz aproximadamente 0,5–0,8 litros por hora por metro quadrado de superfície. Um tambor de 200 L típico tem ~0,25 m² de área superficial — portanto 50 cm de areia produzem 20–40 L/hora.

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### 2.2 Modelo Familiar — Tambor de 200 L

#### 2.2.1 Opções de recipiente

##### Opção A: Tambor de aço 200 L (mais comum no Brasil)

**Vantagens:** barato (R$ 30–80 em ferros-velhos), disponível em todo o RS, resistente, vida útil longa (10+ anos com manutenção).
**Desvantagens:** pesado (15–20 kg vazio), pode enferrujar se a pintura for danificada, difícil de cortar sem ferramentas adequadas.

**⚠️ CRÍTICO — SEGURANÇA DO RECIPIENTE:**
- **NUNCA** use tambores que contiveram: combustíveis (gasolina, diesel, querosene), solventes (thinner, aguarrás), pesticidas, herbicidas, óleos industriais, tintas, resinas, produtos químicos de qualquer tipo. Resíduos impregnados no aço **não saem com lavagem** e contaminarão permanentemente a água — muitos são cancerígenos ou neurotóxicos.
- **USE APENAS** tambores que contiveram: óleo vegetal comestível, azeitonas em salmoura, glicerina grau alimentício, melaço, xarope de glucose, concentrados de frutas, ou tambores NOVOS/SEM USO identificados como grau alimentício.
- **Como verificar:** tambores de grau alimentício geralmente têm a inscrição "ALIMENTÍCIO" no corpo, ou o código UN da ONU seguido de informação sobre o conteúdo original. Na dúvida, **NÃO USE**.
- Mesmo tambores de óleo comestível exigem **lavagem completa** para remover gordura residual: água quente + detergente neutro (coco ou neutro biodegradável), esfregar, enxaguar 3 vezes. Opcional: areia grossa + água para esfregar o interior (abrasivo remove filme de gordura).

##### Opção B: Tambor de polietileno (plástico) 200 L

**Vantagens:** não enferruja, mais leve (8–10 kg), fácil de furar/cortar, grau alimentício é comum (tambores azuis com tampa).
**Desvantagens:** mais caro (R$ 100–200 novo), degrada com exposição solar prolongada (UV), menos resistente mecanicamente.

**Identificação de plástico grau alimentício:**
- Símbolo de taça e garfo no fundo do tambor
- Número 2 (HDPE — polietileno de alta densidade) ou 5 (PP — polipropileno) dentro do triângulo de reciclagem
- Cor azul é o padrão para água/grau alimentício no Brasil (mas verifique: nem todo tambor azul é alimentício)
- NÃO use tambores que contiveram produtos de limpeza, mesmo que lavados

##### Opção C: Anéis de concreto (para instalação permanente)

Para filtros de maior volume e instalações fixas (comunitárias, acampamentos base), pode-se construir o corpo do filtro com manilhas de concreto (anéis de poço) de 60–80 cm de diâmetro e 1–1,5 m de altura.

**Vantagens:** volume maior (200–500 L), altamente durável (décadas), material disponível em qualquer cidade do RS, não requer ferramentas especiais.
**Desvantagens:** construção permanente (não portátil), pesado, requer vedação cuidadosa das juntas, o concreto pode alterar o pH da água nos primeiros meses (alcalinização por liberação de cal).

**Procedimento para concreto novo:**
1. Após curar o concreto (mínimo 7 dias, ideal 28 dias), encha o filtro com água e vinagre (1 parte de vinagre para 10 de água) e deixe por 24 horas para neutralizar a alcalinidade.
2. Esvazie, enxágue 2 vezes com água limpa.
3. Prossiga com o enchimento das camadas filtrantes.

#### 2.2.2 Lista completa de materiais — Modelo Familiar (tambor 200 L)

##### Estrutura principal

| Item | Quantidade | Especificação | Onde encontrar no RS |
|---|---|---|---|
| Tambor 200 L | 1 | Aço ou polietileno, grau alimentício | Ferros-velhos, indústrias alimentícias, Mercado Livre |
| Torneira de saída | 1 | Plástico (PP) ou latão sem chumbo, ½" ou ¾" | Lojas de material de construção, depósitos |
| Adaptador flange para torneira | 1 | Nylon ou PVC, compatível com a rosca da torneira | Casas de ferragem |
| Tampa do tambor | 1 | Original do tambor ou corte de madeira compensada/plástico | Já vem com o tambor; alternativa: compensado naval |
| Placa difusora | 1 | Placa de plástico, madeira ou metal perfurado, ~45 cm diâmetro (ligeiramente menor que o tambor) | Tampa de balde, bandeja de plástico, chapa perfurada |

##### Tubulação e conexões PVC

| Item | Quantidade | Especificação |
|---|---|---|
| Cano PVC soldável | 1,5 m | ½" (20 mm) ou ¾" (25 mm) de diâmetro |
| Joelho PVC 90° | 2 | Mesmo diâmetro do cano |
| Tê PVC | 1 | Mesmo diâmetro (para saída com respiro) |
| Cap (tampão) PVC | 1 | Mesmo diâmetro |
| Adaptador de flange | 1 | Para fixar o tubo ao tambor (se necessário) |
| Cola PVC + lixa | 1 kit | Para conexões fixas (não usar na parte removível) |
| Veda-rosca (teflon) | 1 rolo | Para roscas de torneira e conexões |

##### Camadas filtrantes

| Material | Quantidade (tambor 200 L) | Granulometria | Onde encontrar no RS |
|---|---|---|---|
| Areia fina lavada | ~100–120 kg (~70 L de volume) | 0,15–0,30 mm (D10) | Areais de rio (Guaíba, Jacuí, Caí), lojas de material de construção, lojas de aquarismo/piscina |
| Cascalho separador (areia grossa) | ~15 kg | 1,5–6 mm | Mesmo local que areia fina (peneirar para separar faixa) |
| Brita média (brita 1) | ~12 kg | 6–12 mm | Depósitos de brita, lojas de construção |
| Brita grossa (brita 2) | ~12 kg | 12–18 mm | Depósitos de brita, lojas de construção |
| Placa de drenagem | 1 | ~45 cm diâmetro | Tampa de balde perfurada, chapa de PVC, bandeja plástica |

##### Filtros de tecido (opcionais mas recomendados)

| Material | Quantidade | Uso |
|---|---|---|
| Tela de mosquito (nylon ou poliéster) | 1 m² | Entre camadas de brita e areia grossa (evita migração de finos) |
| Pano de algodão cru ou manta geotêxtil (Bidim) | 0,5 m² | Opcional: entre areia e cascalho separador |
| Pano limpo ou coador de café | 1–2 unidades | Pré-filtragem de água muito turva antes de entrar no filtro |

##### Ferramentas necessárias

| Ferramenta | Uso |
|---|---|
| Serra de metal (arco de serra) | Cortar tambor de aço (se necessário abrir topo) |
| Serra copo ou broca escalonada | Furar tambor para torneira e tubo de saída |
| Furadeira | Para os furos |
| Lima ou esmeril | Rebarbar bordas cortadas (segurança) |
| Peneiras (malhas variadas) | Classificar e lavar areia e brita |
| Baldes (3–5 unidades) | Lavar materiais, transportar água |
| Pá/colher de pedreiro | Manusear areia e brita |
| Trena ou metro | Medições exatas |
| Nível de bolha | Garantir que o tambor está nivelado (essencial!) |
| Luvas de borracha grossa | Manipulação de areia e brita, proteção ao cortar metal |
| Óculos de proteção | Ao cortar metal |

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#### 2.2.3 Construção passo a passo

##### PASSO 1 — Preparar o tambor

**Se o tambor tem tampa removível (mais comum em polietileno):**
1. Remova a tampa e todos os resíduos do conteúdo original.
2. Lave com água quente e detergente neutro. Esfregue bem com escova.
3. Enxágue abundantemente (mínimo 3 vezes).
4. Inspecione o interior com lanterna: não deve haver resíduos, odores ou manchas de ferrugem profunda.
5. Seque ao sol por 1 dia (elimina odores voláteis residuais).

**Se o tambor é de aço selado (tipo "tambor de óleo"):**
1. ⚠️ **CUIDADO:** Se houve qualquer produto inflamável no tambor, mesmo que vazio, vapores residuais podem explodir com faíscas de serra. Encha completamente com água antes de cortar (a água desloca o vapor).
2. Com o tambor deitado, marque uma linha de corte a **5 cm abaixo do topo** (essa "tampa" de 5 cm servirá como borda para proteção).
3. Corte com arco de serra ou serra tico-tico com lâmina para metal.
4. **ATENÇÃO:** Use luvas grossas e óculos. As bordas cortadas são afiadas como navalhas.
5. Lime ou esmerilhe todas as bordas até ficarem lisas ao toque.
6. Opcional: cole uma mangueira cortada ao longo da borda (mangueira de borracha de ½" cortada longitudinalmente) como proteção para as mãos durante a operação.

**Para o tambor de polietileno:**
1. Se precisar abrir o topo, use serra tico-tico com lâmina para plástico ou serra manual.
2. Bordas podem ser alisadas com lixa grossa ou faca aquecida (cuidado com queimaduras).

##### PASSO 2 — Instalar a saída de água (torneira ou tubo)

Existem duas configurações principais de saída para o filtro biosand. A escolha depende se você precisa de um respiro (air gap) para evitar sifonamento reverso:

**Configuração A — Tubo de saída com respiro (recomendada pela CAWST):**

Esta configuração garante que a saída do filtro descarregue **acima** do nível da torneira, criando um "air gap" (espaço de ar) que impede que água suja seja sifonada de volta para dentro do filtro. É a configuração mais segura.

```
                    ╔══════════════════╗
                    ║     TAMBOR       ║
                    ║                  ║
         ┌───────── ║                  ║
         │  PLACA   ║   AREIA FINA     ║
         │  DIFUSORA║                  ║
         └───────── ║                  ║
                    ║                  ║
                    ╠══════════════════╣ ← fundo do tambor
                    ║ ████████████████ ║   (camadas de brita)
                    ║ ████████████████ ║
                    ╠══════════════════╣
                    ║  PLACA DRENAGEM  ║
                    ╚══╤═══════════════╝
                       │
                       │ CANO PVC ½"
                       │ (sobe verticalmente
                       │  pelo lado de DENTRO
                       │  do tambor)
                       │
              ┌────────┘
              │ JOELHO 90°
              │ (atravessa a parede
              │  a 5 cm do fundo)
              │
              ▼ (lado de fora)
         ┌────┴────┐
         │ JOELHO  │
         │ PVC 90° │
         └────┬────┘
              │
              │ CANO PVC (sobe até ~5 cm
              │ abaixo do topo da areia)
              │
         ┌────┴────┐
         │  TÊ PVC │ ← respiro (abertura para cima)
         └────┬────┘  ← água filtrada sai aqui
              │        (acima da torneira de coleta)
              ▼
    ┌─────────────────┐
    │ ÁGUA FILTRADA   │
    │ (coletar em     │
    │  balde/galão)   │
    └─────────────────┘
```

**Procedimento de instalação da saída:**

1. **Marque o furo de saída:**
   - Meça **5 cm acima do fundo** (borda inferior) do tambor.
   - Este ponto deve estar no lado oposto ao local onde você vai despejar a água bruta (por conveniência).
   - Use a broca do diâmetro adequado para o adaptador de flange ou para o cano PVC passar justo.

2. **Fure o tambor:**
   - Aço: use broca escalonada (cone) — comece com broca fina e vá alargando.
   - Plástico: broca normal para madeira/metal funciona; não force para não rachar.

3. **Instale o flange/vedação:**
   - Insira o adaptador de flange pelo lado de dentro (se possível) ou de fora, dependendo do design.
   - Use anéis de borracha (gaxetas) em ambos os lados para vedação.
   - Aperte firmemente, mas não a ponto de deformar o tambor.

4. **Monte a tubulação de saída (respiro):**
   - Dentro do tambor: cano PVC sobe do flange até a placa de drenagem (~15 cm). Conecte ao coletor sob a placa.
   - Fora do tambor: a partir do flange, um joelho 90° e um cano que **sobe** verticalmente.
   - A altura da saída (boca do Tê) determina o **nível da água dentro do filtro**. A saída deve ficar **5 cm acima do nível da areia**.
   - **IMPORTANTE:** A altura da saída dita a altura da areia. Se a saída está a 60 cm do fundo, você precisa de ~55 cm de areia (para manter 5 cm de lâmina d'água sobre a areia).

**Configuração B — Torneira simples (menos segura, mas mais simples):**

```
                    ╔══════════════════╗
                    ║     TAMBOR       ║
                    ║        .         ║
                    ║        .         ║
                    ║   AREIA FINA     ║
                    ║        .         ║
                    ║        .         ║
                    ╠══════════════════╣
                    ║ ████████████████ ║ ← brita
                    ║ ████████████████ ║
                    ╠══════════════════╣
                    ╠══════════════════╣ ← placa de drenagem
                    ║   PLACA DRENAGEM ║
                    ╚══════╤═══════════╝
                           │
                     CANO PVC curto
                           │
                           ▼ (fura a parede do tambor)
                     ┌──────────┐
                     │ TORNEIRA │ ← a 5 cm do fundo
                     └──────────┘
                           │
                           ▼
                     água filtrada
```

> ⚠️ Com torneira simples, **a saída NUNCA deve ser submersa** em um balde com água — isso cria sifonamento reverso e puxa água suja para dentro do filtro. Mantenha sempre um espaço de ar entre a torneira e a superfície da água no recipiente de coleta (air gap de no mínimo 2 cm).

**Torneira ideal:**
- Plástico (polipropileno) — não enferruja, não introduz metais na água.
- Se usar torneira de metal: **latão sem chumbo** (lead-free brass) ou aço inoxidável. NUNCA use torneiras de latão comum (contêm chumbo) ou de ferro galvanizado (zinco e cádmio na água).
- Diâmetro: ½" (12,7 mm) é suficiente para a vazão do filtro.

##### PASSO 3 — Construir a placa de drenagem

A placa de drenagem fica no fundo do tambor e tem duas funções: (1) sustentar as camadas de brita e areia e (2) distribuir uniformemente o fluxo de água filtrada para o tubo de saída.

**Materiais possíveis:**
- Tampa de balde plástico de 20 L (cortada no diâmetro interno do tambor)
- Chapa de PVC ou polipropileno (3–5 mm de espessura)
- Chapa de madeira compensada naval (tratada com óleo de linhaça, não verniz químico)
- Bandeja plástica rígida cortada no diâmetro correto

**Procedimento:**
1. Meça o **diâmetro interno** do tambor (geralmente 57–58 cm para tambor 200 L padrão).
2. Corte um disco com ~2 cm a menos que o diâmetro interno (para caber com folga).
3. Perfure o disco com dezenas de furos de **5–8 mm** de diâmetro, espaçados 3–5 cm entre si, cobrindo toda a superfície. Quanto mais furos, melhor a drenagem.
4. No centro ou próximo à borda alinhada com a saída, faça um furo de **20–25 mm** (para passar o tudo de PVC de saída).
5. **IMPORTANTE:** A placa de drenagem NÃO pode vedar o tambor. A água precisa passar pelos furos, não pelas bordas. Se o disco vedar as bordas, a água fará caminhos preferenciais (curto-circuito) e não será filtrada adequadamente.
6. Para garantir fluxo uniforme, você pode instalar **pés** sob a placa (pedaços de PVC de 2 cm de altura colados no fundo do tambor) ou usar a própria brita grossa como base (coloque 3 cm de brita grossa, depois a placa, depois mais brita).

##### PASSO 4 — Adicionar as camadas de brita (drenagem)

> ⚠️ **TODA BRITA E AREIA PRECISAM SER LAVADAS** antes de colocar no filtro. Veja a Seção 2.3 para instruções detalhadas de lavagem.

1. **Nivele o tambor** com o nível de bolha. Um tambor desnivelado causa fluxo preferencial (a água passa mais rápido de um lado que do outro), reduzindo drasticamente a eficiência do filtro. Use calços de madeira ou pedras sob o tambor.

2. **Instale o tubo de saída interno** (se ainda não estiver instalado): o cano PVC sobe do fundo (conectado ao flange) até a altura da placa de drenagem.

3. **Adicione a primeira camada de brita grossa** (12–18 mm):
   - Altura: **5 cm**
   - Peso aproximado: ~12 kg
   - Função: criar um reservatório poroso no fundo; a água filtrada percorre esta camada até encontrar o tubo de saída.
   - Espalhe uniformemente, certificando-se de que o tubo de saída esteja centralizado ou posicionado corretamente.

4. **Posicione a placa de drenagem** sobre a brita grossa, passando o tubo de PVC pelo furo central. A placa deve ficar horizontal (use o nível).

5. **Adicione a segunda camada de brita média** (6–12 mm):
   - Altura: **5 cm**
   - Peso aproximado: ~12 kg
   - Função: transição granulométrica entre a brita grossa e o cascalho separador.
   - Coloque sobre a placa de drenagem, espalhando uniformemente.

6. **Adicione a camada de cascalho fino** (areia grossa, 1,5–6 mm):
   - Altura: **5 cm**
   - Peso aproximado: ~15 kg
   - Função: evitar que a areia fina migre para as camadas inferiores (colmatação).
   - Opcional: coloque um disco de manta geotêxtil (Bidim) ou pano de algodão cru sobre esta camada antes de adicionar a areia, como barreira adicional contra migração de finos.

**Verificação após camadas de brita:**
- Altura total das camadas de drenagem: ~15 cm (5 + 5 + 5)
- A superfície superior (cascalho fino/areia grossa) deve estar plana e nivelada
- O tubo de saída deve estar firme e centralizado

##### PASSO 5 — Adicionar a camada de areia fina

Esta é a etapa mais crítica. A qualidade da areia determina a qualidade da água filtrada.

**Areia especificada:**
- **Tamanho efetivo (D10):** 0,15–0,30 mm
- **Coeficiente de uniformidade (D60/D10):** < 3 (idealmente < 2,5)
- **Profundidade:** 40–55 cm (recomendamos 50 cm para margem de segurança)
- **Peso:** ~100–120 kg (dependendo da densidade da areia)

> 📐 **O que é D10?** É o diâmetro da malha da peneira que deixa passar 10% do peso da areia. Se D10 = 0,20 mm, significa que 10% dos grãos são menores que 0,20 mm. Este é o parâmetro mais importante: areia muito fina (D10 < 0,15 mm) entope rapidamente; areia muito grossa (D10 > 0,30 mm) não filtra adequadamente.

**Procedimento:**
1. Despeje a areia lavada (veja Seção 2.3) no tambor em camadas de ~10 cm.
2. Após cada camada, alise a superfície com a mão ou uma régua de madeira.
3. NÃO compacte a areia — apenas alise. A compactação reduz a porosidade e a vazão.
4. Continue até atingir a altura desejada. Marque a altura de areia na parede interna do tambor com um traço permanente (caneta de tinta à prova d'água, esmalte de unha, ou um pequeno risco com faca).
5. **Altura total da areia:** 50 cm.
6. A superfície da areia deve estar perfeitamente nivelada. Use o nível de bolha.

**Verificação da altura:**
- Altura total do tambor (200 L padrão): ~88 cm
- Camadas de drenagem: ~15 cm (fundo até topo do cascalho separador)
- Areia: 50 cm
- Sobra: ~23 cm para lâmina d'água + borda livre (mais que suficiente)

**Cálculo de verificação da saída (respiro):**
- Superfície da areia está a: 15 cm (drenagem) + 50 cm (areia) = 65 cm do fundo
- A saída do tubo de respiro (Tê) deve estar a: 65 + 5 = **70 cm do fundo**
- Verifique se a saída do Tê está de fato a 70 cm. Se estiver mais baixa, a areia ficará exposta (a lâmina d'água será menor que 5 cm). Se estiver mais alta, a lâmina d'água será maior (não é um problema grave, mas desperdiça volume de água).

##### PASSO 6 — Adicionar a camada de cascalho superficial (opcional mas recomendada)

Alguns projetos incluem uma fina camada de cascalho/areia grossa no topo da areia para proteger a superfície contra perturbação quando a água é despejada:

- **Material:** cascalho fino / areia grossa (1,5–6 mm)
- **Altura:** 2–3 cm
- **Função:** dissipar a energia da água despejada, protegendo a schmutzdecke de erosão física

> ⚠️ **Trade-off:** esta camada protege a schmutzdecke, mas ao mesmo tempo reduz o oxigênio disponível na superfície da areia (dificulta troca gasosa). Em climas quentes como Porto Alegre, recomendamos **não usar** esta camada, pois a alta temperatura reduz o oxigênio dissolvido na água — a schmutzdecke precisa de oxigênio. A placa difusora (PASSO 7) é suficiente para proteção.

##### PASSO 7 — Construir e instalar a placa difusora

A placa difusora é um disco perfurado que fica suspenso acima do nível da água (ou flutuando) e recebe a água bruta despejada, distribuindo-a suavemente sobre a superfície do filtro sem perturbar a schmutzdecke.

**Sem difusor:** um jato de água despejado de uma só vez cava um buraco na areia, destrói a schmutzdecke e cria um caminho preferencial (curto-circuito) que arruína a filtragem.

**Com difusor:** a água cai sobre a placa, espalha-se e pinga suavemente sobre toda a superfície.

**Materiais:**
- Tampa de balde plástico (~30–35 cm diâmetro) — ideal
- Bandeja plástica ou de alumínio
- Pedaço de madeira compensada naval (tratada com óleo, não verniz)
- Chapa de PVC cortada em disco

**Construção:**
1. Corte um disco com **5–10 cm a menos** que o diâmetro interno do tambor.
2. Faça dezenas de furos de **3–5 mm**, espaçados ~2 cm.
3. Faça 3 furos maiores (~8 mm) próximo à borda para amarrar cordões de sustentação.
4. Opcional: cole "pés" pequenos (2–3 cm) na face inferior para manter a placa afastada da superfície da água (melhor dissipação).

**Instalação:**
- Amarre 3 cordões de nylon (não apodrecem na água) nos furos da borda.
- Prenda as outras pontas dos cordões em ganchos ou furos na borda do tambor, de modo que a placa fique **suspensa ~5–10 cm acima do nível máximo da água**.
- Alternativa: se a placa for de plástico leve, ela pode **flutuar** sobre a água (não precisa de cordões). Neste caso, faça furos apenas na parte central; a borda sem furos garante flutuação. ⚠️ Placas flutuantes podem virar com jatos fortes.

##### PASSO 8 — Instalar a tampa do tambor

A tampa é essencial para:
1. Evitar que sujeira, poeira, folhas, insetos e animais caiam no filtro
2. Bloquear a luz — a luz solar promove crescimento de algas na schmutzdecke (algas consomem oxigênio à noite, podendo matar a biolayer)
3. Reduzir a evaporação (importante no verão de Porto Alegre)
4. Evitar que mosquitos (Aedes aegypti — dengue) depositem ovos na água parada

**Opções:**
- Tampa original do tambor (melhor opção)
- Disco de madeira compensada naval, com alça para remoção
- Placa de plástico ou metal com peso nas bordas
- Lona plástica amarrada com corda (menos ideal, mas funcional)

**IMPORTANTE:** A tampa deve ser **removível** para manutenção e para despejar água. Não sele permanentemente.

##### PASSO 9 — Instalar o suporte/base

O filtro cheio pesa mais de **200 kg** (tambor 8–20 kg + areia 120 kg + brita 30 kg + água 50 kg). Uma base adequada é fundamental:

**Opções de base:**
- 3–4 blocos de concreto (tijolos baianos) assentados em terreno firme e nivelado
- Estrutura de madeira (pernas de eucalipto, travadas com sarrafos) — trate a madeira com óleo queimado ou cal para evitar cupins
- Base de concreto (instalação permanente)
- Palete de madeira reforçado (curto prazo — apodrece em contato com umidade)

**Requisitos da base:**
- Firme e nivelada (use nível de bolha!)
- Altura suficiente para colocar um balde sob a saída (~40 cm do chão)
- Capaz de sustentar 250+ kg
- Afastada de fontes de contaminação (fossas, animais)

**Altura da saída:** a boca da torneira ou Tê de saída deve ficar a pelo menos **30–35 cm** do chão para caber um balde de 20 L confortavelmente.

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### 2.3 Preparação dos materiais filtrantes

#### 2.3.1 Lavagem da areia

Toda areia contém **finos** (silte e argila) que, se não removidos, obstruirão o filtro em dias ou semanas. A lavagem é trabalhosa mas absolutamente necessária.

**Método 1 — Balde e mangueira (mais prático em casa/sítio):**

1. Encha um balde de 20 L até a metade com areia.
2. Encha com água até cobrir.
3. Com a mão ou um pedaço de madeira, **agite vigorosamente** a areia por 30 segundos. A água ficará turva (barrenta).
4. Espere 30 segundos para a areia sedimentar.
5. **Despeje cuidadosamente a água turva** (com os finos em suspensão) fora.
6. Repita os passos 2–5 até que, após agitação e 30 segundos de repouso, a água sobrenadante fique **transparente ou apenas levemente turva**.
7. Isso pode levar **6–10 ciclos de lavagem** para areia de rio (Guaíba, Jacuí).

**Método 2 — Fluxo contínuo (mais rápido, requer mais água):**

1. Coloque areia em um balde com furos pequenos no fundo (ou balde com torneira no fundo).
2. Despeje água continuamente no topo, deixando transbordar.
3. Mexa ocasionalmente.
4. Quando a água que sai pelo fundo estiver limpa, a areia está pronta.

**Método 3 — Lona e chuva (zero trabalho, muito lento):**

1. Espalhe a areia sobre uma lona plástica inclinada.
2. Deixe a chuva lavar (depende do clima; no RS é viável em qualquer estação).
3. Recolha a areia lavada e armazene em local limpo.

**Teste simples para verificar se a areia está bem lavada:**
- Coloque um punhado de areia lavada em uma garrafa PET transparente com água.
- Agite vigorosamente por 30 segundos.
- Deixe repousar por 1 minuto.
- Se a água acima da areia ainda estiver turva, continue lavando.
- A água deve ficar clara em menos de 1 minuto.

#### 2.3.2 Peneiramento — Como obter a granulometria correta sem laboratório

O tamanho efetivo (D10) ideal é **0,15–0,30 mm**. Sem equipamento de laboratório, use o seguinte método de campo:

**Equipamento necessário:**
- Peneira de malha 0,15 mm (150 microns) — peneira de farinha fina, peneira de laboratório, ou tecido de nylon com abertura conhecida
- Peneira de malha 0,30 mm (300 microns) — peneira de cozinha fina, tecido de voile
- Peneira de malha 1,5 mm — peneira de construção ou cozinha grossa

**Alternativas de peneiras caseiras:**
| Malha aproximada | Equivalente caseiro |
|---|---|
| 0,15 mm (~100 mesh) | Tecido de organza duplo, peneira de farinha de trigo fina, meia de nylon (tipo meia-calça) |
| 0,30 mm (~50 mesh) | Tecido de mosquiteiro fino (nylon), peneira de chá, voile |
| 0,60 mm (~30 mesh) | Tela de mosquito comum (fibra de vidro ou nylon) |
| 1,5 mm (~14 mesh) | Peneira de cozinha grossa, tela de viveiro |
| 6 mm | Peneira de construção (areia grossa), tela de galinheiro |

**Procedimento de peneiramento:**
1. **Pré-peneiramento:** Remova pedras, galhos e detritos com peneira de 6 mm.
2. **Peneiramento grosso:** Passe a areia pela peneira de 0,30 mm (300 µm). O que **passar** é areia fina (boa candidata). O que **ficar retido** é areia grossa — use para o cascalho separador.
3. **Peneiramento fino:** Passe a areia que passou pela malha de 0,30 mm pela peneira de 0,15 mm (150 µm). O que **ficar retido** na malha de 0,15 mm é a areia ideal (entre 0,15 e 0,30 mm). O que **passar** pela malha de 0,15 mm é silte/argila fina demais — **descarte** (entupirá o filtro).
4. Repita até ter quantidade suficiente de areia na faixa 0,15–0,30 mm.

**Rendimento típico:**
- De 100 kg de areia de rio bruta (Guaíba), você obterá aproximadamente:
  - 15–20 kg de pedras e cascalho (>6 mm)
  - 30–40 kg de areia grossa (1,5–6 mm — use no cascalho separador)
  - 25–35 kg de areia na faixa ideal (0,15–0,30 mm)
  - 10–20 kg de finos/silte (<0,15 mm — descarte)

#### 2.3.3 Testes de campo para qualidade da areia

**Teste 1 — Teste do frasco (rapidez de sedimentação):**
1. Coloque 100 g de areia (na faixa 0,15–0,30 mm) em um frasco transparente com 200 mL de água.
2. Agite vigorosamente por 30 segundos.
3. Deixe repousar.
4. Cronometre quanto tempo leva para a água acima da areia ficar **completamente clara**.
   - **< 2 minutos:** areia muito grossa ou mal graduada (pouca área superficial para filtração). Descarte ou misture com areia mais fina.
   - **2–5 minutos:** areia ideal (boa sedimentação, boa área superficial).
   - **> 10 minutos:** areia muito fina ou com excesso de silte. Continue lavando.
   - **> 30 minutos:** areia inutilizável para filtro biosand (entope imediatamente).

**Teste 2 — Teste de fluxo (condutividade hidráulica):**
1. Pegue um cano PVC de 50 mm de diâmetro e 1 m de comprimento.
2. Tampe uma extremidade com pano de algodão preso por elástico.
3. Encha 50 cm com a areia a ser testada (compactação leve, similar à do filtro).
4. Despeje água no topo e meça quanto tempo leva para o nível baixar 10 cm.
   - **20–60 segundos para baixar 10 cm:** areia na faixa ideal.
   - **< 10 segundos:** areia grossa demais (baixa eficiência de filtração).
   - **> 3 minutos:** areia fina demais (entupirá o filtro).

**Teste 3 — Teste visual (lupa de campo):**
- Com uma lupa ou lente de aumento (conta-fios, lupa de relojoeiro, lente de câmera), observe os grãos de areia.
- Grãos **angulares** (com arestas e quinas) são melhores que grãos **arredondados** (erosão fluvial longa) — mais área superficial para adsorção de patógenos.
- A areia do Guaíba tende a ser subangular a subarredondada (aceitável). Areia de pedreira britada (artificial) é mais angular e potencialmente melhor, mas precisa ser lavada com mais cuidado (muito pó de britagem).

#### 2.3.4 Preparação da brita

1. Lave toda a brita com água corrente em balde ou peneira grossa até que a água saia limpa.
2. Classifique com peneiras nos tamanhos especificados:
   - Brita grossa: 12–18 mm
   - Brita média: 6–12 mm
   - Cascalho fino: 1,5–6 mm
3. Armazene cada tipo em local limpo e seco (sacos, baldes ou lona) até o uso.
4. **Não use brita de construção sem lavar** — contém pó de pedra e calcário que podem alterar o pH da água e obstruir o sistema.

#### 2.3.5 Esterilização opcional dos materiais

Se houver suspeita de que a areia ou brita estejam contaminadas com matéria orgânica ou patógenos (ex.: areia retirada de local próximo a esgoto ou curral), esterilize antes de usar:

**Opção A — Solarização:**
- Espalhe a areia em camada fina (5–10 cm) sobre lona preta.
- Cubra com outra lona transparente (efeito estufa).
- Deixe ao sol pleno do verão gaúcho (30–38 °C ambiente) por 2–3 dias.
- A temperatura sob a lona atinge 50–70 °C, matando a maioria dos patógenos.

**Opção B — Fervura (pequenas quantidades):**
- Ferva a areia/brita em água por 10 minutos.
- Escorra e seque ao sol.
- Só prático para areia do cascalho separador (pouca quantidade).

> ⚠️ A areia não precisa ser estéril para o filtro funcionar — a biolayer se formará de qualquer forma a partir dos microrganismos presentes na água bruta. A esterilização só é necessária se a areia estiver **visivelmente contaminada** (odor de esgoto, matéria orgânica em decomposição, proximidade de fossas).

---

### 2.4 Modelo Comunitário — Múltiplos tambores em paralelo

Para atender grupos maiores (20–50 pessoas), a melhor abordagem é instalar **múltiplos filtros familiares em paralelo**. Filtros maiores em um único recipiente (ex.: caixa d'água de 500–1000 L) são tecnicamente mais desafiadores (distribuição uniforme de fluxo em grandes áreas) e menos tolerantes a falhas.

#### 2.4.1 Configuração em paralelo (manifold)

```
   ╔══════════╗    ╔══════════╗    ╔══════════╗    ╔══════════╗
   ║ FILTRO 1 ║    ║ FILTRO 2 ║    ║ FILTRO 3 ║    ║ FILTRO 4 ║
   ║ (200 L)  ║    ║ (200 L)  ║    ║ (200 L)  ║    ║ (200 L)  ║
   ╚═══╤══════╝    ╚═══╤══════╝    ╚═══╤══════╝    ╚═══╤══════╝
       │                │                │                │
       │  tubo saída    │                │                │
       │  ½" PVC        │                │                │
       │                │                │                │
       ├────────────────┼────────────────┼────────────────┤
       │                                                       │
       │          MANIFOLD (TUBO PVC 1" ou 1½")                │
       │          (ligeira inclinação para a saída)             │
       │                                                       │
       └───────────────────────────────────────────────────────┤
                                                               │
                                                               ▼
                                                    ┌──────────────────┐
                                                    │ RESERVATÓRIO DE  │
                                                    │ ÁGUA FILTRADA    │
                                                    │ (200 L ou maior) │
                                                    └──────────────────┘
                                                               │
                                                               │ torneira
                                                               ▼
                                                          consumo
```

**Vantagens da configuração em paralelo:**
- Se um filtro falhar ou estiver em manutenção, os outros continuam operando
- Cada filtro opera independentemente (biolayer se desenvolve no seu próprio ritmo)
- Mais fácil de construir (cada filtro usa o design padrão de 200 L)
- Modular: comece com 2 filtros e adicione mais conforme a comunidade cresce
- Custo proporcional: R$ 80–150 por filtro adicional (areia + brita + conexões)

**Materiais adicionais para o manifold:**
| Item | Quantidade | Especificação |
|---|---|---|
| Cano PVC | 3–5 m | 1" (32 mm) ou 1½" (40 mm) — tubo coletor principal |
| Tê PVC de redução | N filtros | 1" × ½" — para conectar cada filtro ao coletor |
| Joelho PVC 90° | 2 | 1" — para curvas no coletor |
| Torneira de saída | 1 | 1" — para o reservatório coletor |
| Reservatório coletor | 1 | Tambor 200 L limpo ou caixa d'água |

#### 2.4.2 Dimensionamento para comunidade

| Número de pessoas | Produção diária necessária* | Tambores de 200 L recomendados |
|---|---|---|
| 10 | 50–80 L/dia | 1 filtro (20–40 L/h × 3–4 h/dia) |
| 20 | 100–160 L/dia | 2 filtros |
| 30 | 150–240 L/dia | 3 filtros |
| 50 | 250–400 L/dia | 4–5 filtros |

*Considerando apenas água para beber e cozinhar (5–8 L/pessoa/dia). Para higiene, recomenda-se fontes não tratadas (água de chuva bruta para banho e lavagem) ou filtragem menos rigorosa.

**Horas de operação por dia:** cada filtro produz 20–40 litros por hora. Com 4 horas de operação diária (despejar água 2–4 vezes ao dia), um filtro entrega 80–160 litros/dia.

#### 2.4.3 Considerações de logística comunitária

**Distribuição de tarefas:**
- Designar 2–3 pessoas como "responsáveis pelo filtro"
- Cada responsável treina outros 2 (redundância de conhecimento)
- Criar escala de abastecimento (quem despeja água, em que horários)
- Registrar produção diária em uma tabuleta/planilha

**Localização:**
- Área sombreada (sob árvore, telheiro, varanda) — evitar sol direto no tambor (algas, aquecimento)
- Próximo à fonte de água bruta (rio, cisterna, captação de chuva) — reduz distância de transporte
- Em cota mais alta que fontes de contaminação (fossas, currais, composteiras)
- Acessível a todos os membros da comunidade

**Multiplicação de unidades:**
Se a comunidade crescer, basta adicionar mais tambores ao manifold. O limite prático é de ~10 tambores em paralelo com um único manifold de 1½".

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## 3. Comissionamento (Partida do Filtro)

### 3.1 Primeiro enchimento

1. Com o filtro montado e todas as camadas no lugar, **despeje lentamente o primeiro balde de água** (20 L) sobre a placa difusora.
2. Espere a água infiltrar completamente na areia (~10–15 minutos para o primeiro balde).
3. Repita o enchimento em incrementos de 20 L até que a água comece a sair pela torneira/tubo de saída.
4. A esta altura, a areia estará saturada e o nível da água começará a subir acima da superfície da areia.
5. **Descarte toda a água que sair nas primeiras 24 horas.** Esta água conterá finos residuais da areia e brita que escaparam da lavagem, além de bactérias do ambiente.

### 3.2 Período de maturação (2–3 semanas)

O filtro **não produz água potável imediatamente**. A schmutzdecke (biolayer) precisa se desenvolver, e isso leva tempo.

**Linha do tempo da maturação:**

| Período | O que está acontecendo | A água é potável? |
|---|---|---|
| **Dia 1–3** | Areia assenta, fluxo se estabiliza, microrganismos começam a colonizar a superfície. | ❌ NÃO. Descarte a água. |
| **Dia 4–7** | Primeiras bactérias benéficas se estabelecem. Comunidade microbiana ainda é instável. | ❌ NÃO. Use apenas para fins não potáveis (regar plantas, lavar chão). |
| **Dia 8–14** | Biolayer começa a se formar visivelmente — superfície da areia fica mais escura e com textura gelatinosa ao toque. Predação de patógenos começa. | ⚠️ MELHOROU, MAS NÃO CONFIÁVEL. Ferva ou clore a água filtrada antes de beber. |
| **Dia 15–21** | Biolayer madura. Remoção de bactérias atinge 90–99%. | ✅ POTÁVEL para adultos saudáveis. Crianças, idosos: ferva ou combine com SODIS/cloro. |
| **Dia 21+** | Filtro em regime estável. Comunidade microbiana se autorregula. | ✅ POTÁVEL. Monitore turbidez e fluxo. |

**Acelerando a maturação (método "seed" — semeadura):**
Se você tem acesso a água de um rio limpo, lago ou açude (não água de torneira clorada), use-a para encher o filtro nos primeiros dias. A água natural contém a diversidade microbiana que formará a schmutzdecke mais rapidamente. **Não use água clorada** (água da rede pública) — o cloro mata os microrganismos benéficos que você quer cultivar.

### 3.3 Como saber que o filtro está funcionando

**Sinais de que a maturação foi bem-sucedida:**

1. **Visual:** a superfície da areia desenvolve uma coloração **marrom-escura a preta** nos primeiros 1–3 cm. Esta é a schmutzdecke. Não se assuste — é o que você quer ver.
2. **Tátil:** ao tocar suavemente a superfície com o dedo, sente-se uma textura **gelatinosa, ligeiramente viscosa**. Isto é o biofilme (polissacarídeos extracelulares).
3. **Água de saída:** cristalina, sem turbidez visível. Se você colocar a água em um copo de vidro e olhar através dele contra a luz, deve ser transparente.
4. **Odor:** a água filtrada deve ser **inodora** ou com leve odor de terra molhada (agradável, não desagradável).
5. **Vazão estável:** depois de estabilizado, o fluxo deve ser constante (ver seção 4.1).

**Sinais de que algo está errado:**
- Água de saída turva ou colorida
- Odor de ovo podre (sulfeto de hidrogênio — condições anaeróbicas, areia muito fina ou sem oxigênio)
- Odor de esgoto ou putrefação
- Fluxo extremamente baixo (< 5 L/hora) desde o início
- Ausência de schmutzdecke visível após 3 semanas

> ⚠️ Se após 4 semanas o filtro não tiver desenvolvido biolayer visível e a água de saída não estiver cristalina, **reconstrua o filtro** do zero: esvazie, lave novamente toda a areia, verifique a granulometria e recomece. Algo está errado com o material ou a montagem.

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## 4. Operação e Manutenção

### 4.1 Operação diária

#### Manutenção do nível da água

O filtro biosand requer que a areia esteja **sempre submersa** — a lâmina d'água sobre a areia deve ser mantida em **5 cm** no mínimo.

- Se a água baixar e a areia ficar exposta, a schmutzdecke **começa a secar e morrer** em questão de horas (mais rápido no verão de Porto Alegre).
- Se a schmutzdecke morrer, o filtro precisa de **2–3 semanas de re-maturação**.
- **Regra de ouro:** despeje água nova assim que o nível baixar para ~5 cm acima da areia. Não espere secar.

#### Medição do fluxo (vazão)

Monitore a vazão periodicamente para detectar problemas precocemente:

1. Coloque um balde ou garrafa graduada sob a saída.
2. Cronometre 1 minuto exato.
3. Meça o volume coletado em mL ou litros.
4. Calcule: **Vazão (L/h) = Volume coletado (em 1 min) × 60**

**Vazão esperada para filtro de tambor 200 L:**
| Condição | Vazão (L/hora) | Significado |
|---|---|---|
| Novo, recém-montado | 40–80 | Areia limpa e solta; a vazão é alta porque a biolayer ainda não se formou e os poros estão abertos. |
| Maduro, regime estável | 20–40 | Biolayer formada; esta é a vazão operacional normal e desejada. |
| Lento, precisa de limpeza | 10–20 | Biolayer e/ou areia superior estão acumulando detritos. Monitorar. |
| Muito lento, ação necessária | < 10 | Hora de fazer swirl-and-dump (ver seção 4.2). |
| Entupido | < 5 ou zero | Problema sério — ver troubleshooting (seção 4.4). |

> 📐 **Por que a vazão cai com o tempo?** A schmutzdecke e os poros superiores da areia acumulam partículas filtradas, reduzindo progressivamente a permeabilidade. Isso é normal e esperado. A queda de vazão é um indicador útil: quando cai abaixo de ~20 L/h, é hora de limpar.

#### Registro de operação (recomendado)

Mantenha um registro simples afixado próximo ao filtro:

| Data | Hora | Vazão (L/h) | Ação (abastecimento, limpeza) | Observações |
|---|---|---|---|---|
| 03/08 | 08:00 | 35 | Abasteci 40 L | Água saiu cristalina |
| 03/08 | 18:00 | 33 | Abasteci 40 L | — |
| 10/08 | 08:00 | 22 | Abasteci 40 L | Vazão caindo |
| 12/08 | 09:00 | 18 | Swirl-and-dump | Vazão recuperou para 38 L/h |

Este registro permite identificar padrões (ex.: a vazão cai mais rápido em época de chuva — água mais turva = mais partículas para filtrar) e antecipar manutenções.

### 4.2 Limpeza — Procedimento Swirl-and-Dump

O "swirl-and-dump" (rodar e despejar) é o método padrão CAWST para limpar o filtro biosand. Ele remove o excesso de detritos acumulados na superfície da areia **sem destruir completamente** a biolayer. Não requer desmontar o filtro.

**Quando fazer:**
- Vazão caiu abaixo de ~50% da vazão original (ex.: de 40 L/h para < 20 L/h)
- A cada 1–3 meses em operação normal (depende da turbidez da água bruta)
- Quando a superfície da areia estiver visivelmente coberta por uma camada de lodo/sujeira

**Procedimento (passo a passo):**

1. **Pare de despejar água** no filtro. Deixe o nível descer até ~2–3 cm acima da areia (não deixe secar completamente!).

2. **Remova a placa difusora** com cuidado.

3. **Com a mão em concha ou uma colher de madeira, revolva suavemente os 2–3 cm superiores da areia** em movimentos circulares ("swirl"). O objetivo é desprender os detritos acumulados, não cavar um buraco. Limite-se à camada superficial — **não revolva abaixo de 3–5 cm de profundidade**, pois isso mataria a biolayer mais profunda e atrasaria a recuperação.

4. **Espere 1–2 minutos** para a areia assentar e os detritos ficarem em suspensão na água sobrenadante.

5. **Com uma caneca, concha ou copo, remova cuidadosamente a água sobrenadante turva (com os detritos em suspensão).** Não despeje a água de volta sobre a areia — remova-a do filtro. Descarte esta água suja longe do filtro.

6. **Repita os passos 3–5** (revolver + remover água suja) **2 a 3 vezes**, até que a água sobrenadante fique razoavelmente clara após revolver.

7. **Recoloque a placa difusora.**

8. **Reabasteça o filtro com água bruta** e meça a vazão. Ela deve ter aumentado significativamente (ex.: de 15 L/h para 30–40 L/h).

9. **Após a limpeza, a água filtrada NÃO é potável por 24–48 horas.** A biolayer foi parcialmente perturbada e precisa de tempo para se restabelecer. Durante este período, ferva ou clore a água filtrada antes de beber.

**Frequência típica de swirl-and-dump:**
| Turbidez da água bruta | Frequência de limpeza |
|---|---|
| Água muito limpa (chuva, poço) | A cada 2–3 meses |
| Água moderadamente turva (rio em tempo seco) | A cada 4–6 semanas |
| Água bastante turva (rio em tempo chuvoso) | A cada 2–4 semanas |
| Água muito turva (enchente, após pré-filtragem) | A cada 1–2 semanas |

### 4.3 Substituição da areia

Com o tempo, a areia acumula detritos que nenhuma quantidade de swirl-and-dump consegue remover. Além disso, a abrasão entre grãos durante a limpeza e operação pode arredondar os grãos e reduzir a eficiência de filtração.

**Quando substituir a areia:**

| Sinal | Ação |
|---|---|
| Swirl-and-dump não recupera mais a vazão (> 20 L/h) mesmo após 3 tentativas | Hora de trocar a areia superficial |
| Odor persistente de ovo podre (mesmo após limpeza) | Substituir areia — condições anaeróbicas instaladas |
| Água de saída persistentemente turva (sem melhora após swirl-and-dump) | Areia perdeu capacidade filtrante |
| 2–3 anos de uso contínuo (manutenção preventiva) | Substituir toda a areia |

**Procedimento de substituição completa:**

1. Deixe o filtro drenar completamente (abra a torneira/saída e não reabasteça).
2. Com uma pá de mão ou colher grande, **remova toda a areia** (50 cm). Coloque em baldes ou sobre uma lona.
3. Remova também o cascalho separador e a brita. Separe cada camada (não misture).
4. Inspecione a placa de drenagem: limpe os furos se estiverem obstruídos.
5. Lave a brita e o cascalho separador. Podem ser reutilizados (brita não se degrada significativamente).
6. A areia removida pode ser reaproveitada para fins não potáveis (construção, jardinagem, cobertura de solo).
7. **Não reutilize a areia velha no filtro** — ela perdeu a granulometria adequada e está saturada de detritos.
8. Siga o procedimento de montagem da Seção 2 para recolocar as camadas com areia nova.
9. Execute o comissionamento (Seção 3) como se fosse um filtro novo (2–3 semanas de maturação).

**Procedimento de substituição apenas da areia superficial (a cada 6–12 meses, opcional):**

Uma alternativa mais rápida é substituir apenas os **5–10 cm superiores** da areia:

1. Remova cuidadosamente os 5–10 cm superiores com uma colher.
2. Adicione areia nova lavada (mesma granulometria) até a altura original.
3. Reabasteça e aguarde 1 semana para a biolayer se restabelecer no topo da areia nova.

> 💡 Muitas comunidades que operam filtros biosand mantêm um "estoque de areia" (um balde de 20 L com areia lavada e classificada) para reposições rápidas da camada superficial.

### 4.4 Solução de Problemas (Troubleshooting)

#### Problema: Sem fluxo / fluxo extremamente baixo (< 5 L/h)

| Causa provável | Solução |
|---|---|
| Biolayer e areia superior saturadas de detritos | Faça swirl-and-dump. Se não resolver, troque areia superficial. |
| Areia muito fina usada na construção | Infelizmente, só resolvido reconstruindo com areia na faixa correta. |
| Tubo de saída obstruído | Verifique se o tubo não está entupido com areia fina ou biofilme. Use um arame flexível para desobstruir. |
| Placa de drenagem obstruída | Desmontar, limpar os furos, remontar. |
| Camada de cascalho separador insuficiente — areia fina migrou para a brita | Reconstrução necessária. |
| Ar preso no tubo de saída (sifão não puxa) | Verifique se o respiro (Tê) não está obstruído. O ar precisa entrar para a água sair. |

#### Problema: Água de saída com odor ou sabor ruim

| Sintoma | Causa provável | Solução |
|---|---|---|
| Cheiro de **ovo podre** (sulfídrico) | Condições anaeróbicas na areia — oxigênio insuficiente. Acontece se a areia for muito fina ou a lâmina d'água for muito profunda. | Reduza a altura de lâmina d'água para 5 cm (aumenta oxigenação). Aumente a frequência de abastecimento (água fresca traz oxigênio dissolvido). Se persistir, areia muito fina — trocar areia. |
| Cheiro de **mofo / terra estragada** | Matéria orgânica em decomposição na areia. | Faça swirl-and-dump vigoroso. Se não resolver, troque areia superficial. Verifique a tampa — se estiver mal vedada, material orgânico (folhas, insetos) pode estar caindo no filtro. |
| Gosto **metálico** | Tambor de aço enferrujando ou torneira inadequada (latão com chumbo, ferro galvanizado). | Substitua torneira por plástico. Se o tambor estiver enferrujando, pinte o interior com tinta epóxi grau alimentício (difícil de achar) ou substitua por tambor de polietileno. |
| Gosto **de plástico** | Tambor de plástico novo ou não alimentício liberando compostos. | Se for tambor novo grau alimentício, o gosto desaparece após 1–2 semanas de uso. Se persistir, o plástico pode não ser adequado — substitua. |
| Gosto **salgado** ou **amargo** | Possível contaminação por sais ou minerais na água bruta. O filtro biosand NÃO remove sais. | A água bruta é o problema — mude a fonte de água ou combine com destilação para dessalinização. |

#### Problema: Algas crescendo no filtro

| Causa | Solução |
|---|---|
| Exposição à luz solar (direta ou indireta) no tambor | **Cubra o tambor com lona escura** ou pinte de preto fosco (por fora). A tampa deve ser opaca — se for translúcida, cubra com lona. Posicione o filtro em área sombreada. |
| Água bruta rica em nutrientes (nitrogênio, fósforo) | Infelizmente, se a água bruta é eutrofizada (esgoto, fertilizantes), as algas vão crescer. A solução é bloquear a luz + swirl-and-dump frequente. |

> ⚠️ **Algas verde-azuladas (cianobactérias):** se você notar uma camada verde-azulada brilhante na superfície da água, podem ser cianobactérias — muitos gêneros produzem toxinas (microcistinas) que **não são removidas pelo filtro biosand** e **não são destruídas pela fervura**. Se houver suspeita de floração de cianobactérias (comum em verões quentes em açudes e lagos do RS), **não use essa água** — busque fonte alternativa.

#### Problema: Biolayer não se forma (após 4 semanas)

| Causa provável | Solução |
|---|---|
| Água bruta clorada (rede pública) está matando os microrganismos | Deixe a água da torneira repousar em balde aberto por **24 horas** antes de despejar no filtro — o cloro evapora. |
| Água bruta muito limpa / pobre em nutrientes (ex.: água destilada, água de chuva recém-coletada sem contato com telhado) | Adicione um pouco de água de rio, lago ou açude para inocular microrganismos. Um copo de água de rio é suficiente para semear o filtro. |
| Temperatura muito baixa (< 10 °C) — metabolismo microbiano lento | No inverno do RS, a maturação pode levar 4–6 semanas em vez de 2–3. Continue operando — a biolayer se formará, só mais devagar. Isole o tambor (ver Seção 7.3). |
| Areia contaminada com produtos químicos ou metais | Só resolvido com areia nova de fonte confiável. |
| pH da água muito extremo (< 5 ou > 9) | Verifique o pH da água bruta. O filtro funciona melhor entre pH 6,5–8,5. Fora dessa faixa, considere pré-tratamento. |

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## 5. Teste de Qualidade da Água sem Laboratório

Sem acesso a laboratório (cenário de colapso), você pode avaliar a qualidade da água com métodos de campo simples. Nenhum é perfeito, mas combinados podem dar uma indicação razoável de potabilidade.

### 5.1 Teste de turbidez

**O que mede:** partículas em suspensão (argila, silte, matéria orgânica, microrganismos). Água turva é mais difícil de desinfetar e pode indicar falha no filtro ou contaminação.

**Método 1 — Teste da transparência (coluna d'água):**

1. Use um tubo transparente (cano PVC cristal, garrafa PET lisa cortada como cilindro, mangueira transparente) com pelo menos 30 cm de comprimento.
2. Marque graduações a cada 1 cm com fita adesiva e caneta permanente.
3. Coloque um **disco de Secchi caseiro** no fundo: uma moeda ou arruela pintada de preto fosco.
4. Encha o tubo com a água a ser testada.
5. Olhe de cima para baixo, através da coluna d'água, e determine a profundidade em que o disco **deixa de ser visível**.
6. Leia a altura da coluna d'água nesse ponto.

**Interpretação:**
| Profundidade de visibilidade | Turbidez estimada (NTU) | Qualidade |
|---|---|---|
| > 30 cm (disco visível em toda a coluna) | < 5 NTU | ✅ Excelente — água cristalina, adequada para consumo após desinfecção. |
| 20–30 cm | 5–10 NTU | ✅ Boa — aceitável para consumo. |
| 10–20 cm | 10–20 NTU | ⚠️ Moderada — filtrar novamente ou pré-filtrar com pano antes do filtro biosand. |
| 5–10 cm | 20–50 NTU | ❌ Alta — pré-filtrar com pano + decantar antes do biosand. |
| < 5 cm (não se vê o disco com 5 cm de água) | > 50 NTU | ❌ Muito alta — água NÃO adequada para filtro biosand sem pré-tratamento (decantação + pré-filtragem). |

**Método 2 — Teste visual simples (copo de vidro):**

1. Encha um copo de vidro transparente (tipo americano, de preferência sem desenhos).
2. Coloque contra uma folha de papel branco com texto impresso (tamanho de fonte ~12 pt).
3. Olhe através do copo para o texto.
   - **Texto perfeitamente legível:** turbidez baixa (< 10 NTU), aceitável.
   - **Texto ligeiramente distorcido:** turbidez moderada (10–20 NTU).
   - **Texto ilegível / apenas vulto:** turbidez alta (> 20 NTU).

### 5.2 Teste de odor

1. Colete a água em um frasco de vidro limpo com tampa (frasco de conserva, garrafa).
2. Tampe e agite vigorosamente por 10 segundos.
3. Destampe e **cheire imediatamente** (não deixe o odor dissipar).
4. Classifique o odor:

| Odor | Possível significado | Ação |
|---|---|---|
| **Nenhum odor** | ✅ Normal | Adequada |
| **Terra molhada (agradável)** | ✅ Normal — odor geosmina (produzido por bactérias benéficas do solo) | Adequada |
| **Ovo podre / enxofre** | ❌ Sulfeto de hidrogênio — decomposição anaeróbica | Filtro com problema (ver troubleshooting). Não consuma. |
| **Esgoto / fezes / podre** | ❌ Contaminação fecal | NÃO CONSUMA. Ferva 3 min + carvão ativado + cloração. |
| **Peixe / mofo** | ❌ Decomposição de matéria orgânica ou algas | Tratar com carvão ativado. |
| **Químico / gasolina / solvente** | ❌ Contaminação industrial | NÃO CONSUMA. Somente destilação remove esses contaminantes. Ferver pode volatilizar e tornar o ar perigoso. |
| **Cloro** | Pode ser residual da desinfecção | OK se for residual controlado. Se for muito forte, deixe arejar. |

### 5.3 Teste de sabor (protocolo de segurança)

**⚠️ Este teste NÃO deve ser feito se houver suspeita de contaminação química (odor de gasolina, solvente, produtos industriais).**

1. O teste de sabor só deve ser feito **após** o teste de odor ter resultado normal.
2. Coloque um pequeno gole (5 mL) na boca.
3. **Não engula.** Mantenha na boca por 5 segundos, sentindo o sabor.
4. **Cuspa.** Enxágue a boca com água segura.
5. Espere 15 minutos. Se não houver dormência, ardência, náusea ou mal-estar, o sabor não indicou toxicidade aguda.
6. Se o sabor for normal (ausente ou levemente mineral/terroso), a água passou no teste de sabor.

| Sabor | Significado |
|---|---|
| **Nenhum** | Normal |
| **Levemente doce** | Pode indicar presença de matéria orgânica ou alguns minerais. Geralmente inofensivo. |
| **Salgado** | Presença de sais dissolvidos (cloreto de sódio, etc.). O filtro biosand não remove sais. |
| **Amargo** | Pode indicar metais (ferro, cobre, zinco) ou minerais (magnésio). Investigue a fonte. |
| **Metálico** | Metais dissolvidos — verifique tambor/torneira (ferrugem, latão). |
| **Ácido / azedo** | Água com pH baixo (< 5). Pode corroer metais. Verifique com indicador (repolho roxo — ver abaixo). |
| **Sabão / detergente** | Contaminação química. NÃO consuma. |

### 5.4 Indicador de pH caseiro (repolho roxo)

O pH ideal da água para consumo é 6,5–8,5. Água muito ácida ou muito alcalina pode indicar contaminação ou ineficiência do filtro.

**Preparação do indicador:**
1. Pique 2–3 folhas de repolho roxo.
2. Ferva em 200 mL de água por 10 minutos.
3. Coe — o líquido roxo resultante é o indicador.
4. Armazene em frasco escuro (degrada com luz). Dura ~1 semana em temperatura ambiente.

**Uso:**
1. Coloque 50 mL da água a testar em um copo branco.
2. Adicione 5 gotas do indicador de repolho roxo.
3. Compare a cor com a escala:

| Cor | pH aproximado | Interpretação |
|---|---|---|
| Vermelho / rosa intenso | 2–4 | Muito ácida — potencialmente perigosa (contaminação química?) |
| Rosa / laranja | 5–6 | Levemente ácida — aceitável |
| Roxo (cor original) | 7 | Neutra — ideal |
| Azul | 8 | Levemente alcalina — aceitável |
| Verde | 9–10 | Alcalina — pode indicar cal/calcário na brita ou concreto novo |
| Amarelo / verde-amarelado | 11–14 | Muito alcalina — potencialmente perigosa |

### 5.5 Teste de E. coli — Alternativas de campo

⚠️ **Não existe método caseiro confiável para detectar E. coli sem equipamento.** Bactérias coliformes não são visíveis a olho nu, não têm odor nem sabor. Os métodos abaixo são aproximações grosseiras.

**Método 1 — Indicador de contaminação fecal por observação indireta:**
- Se a água é de fonte com **presença visível de fezes** (humanas ou animais) a montante
- Se há **casos de diarreia** na comunidade que consome a mesma água
- Se a água tem **odor de esgoto**
→ Assuma que há contaminação fecal e trate adequadamente (fervura + cloro).

**Método 2 — Teste de H2S (sulfeto de hidrogênio) — indicador indireto:**
O teste de H2S é um método de campo usado em alguns países em desenvolvimento. Bactérias redutoras de sulfato (frequentemente associadas a contaminação fecal) produzem H2S, que escurece o papel impregnado com sais de ferro.

**Preparação do frasco de teste (para referência — difícil de fazer em cenário de colapso):**
- Frasco de vidro com tampa
- Tira de papel impregnada com cloreto de ferro e tiossulfato de sódio
- Se a tira escurecer após 24–48 horas com a amostra de água, há produção de H2S → possível contaminação fecal

**Limitação:** não detecta E. coli especificamente; falsos positivos e falsos negativos são comuns. É um indicador de triagem, não um teste definitivo.

**Método 3 — Colilert e similares (testes enzimáticos comerciais):**
Existem kits comerciais (Colilert, Aquatest, Petrifilm) que detectam E. coli e coliformes totais por mudança de cor ou fluorescência. Requerem:
- Aquisição prévia (antes do colapso)
- Armazenamento refrigerado (alguns)
- Incubação a 35–37 °C por 24 horas

Se você tiver acesso a estes kits (comprar e armazenar como parte do kit de emergência), são o método mais confiável sem laboratório. A incubação pode ser feita com:
- Bolsa térmica + bolsa de água quente (trocar a cada 6 horas)
- Enterrar o frasco em compostagem ativa (~40 °C) — improvisado, mas funcional
- Deixar próximo ao corpo (temperatura axilar ~36 °C) por 24 horas

> 💡 **Recomendação prática:** em cenário de colapso, a melhor estratégia é **combinar filtro biosand + desinfecção secundária** (fervura ou cloro) para água de consumo, especialmente para crianças, idosos, gestantes e doentes. Esta abordagem em duas barreiras compensa a incapacidade de testar E. coli com precisão. Veja [[03_agua#2]].

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## 6. Limitações de Desempenho e Pré-tratamentos

### 6.1 O que o filtro biosand NÃO remove

O filtro de areia foi projetado para remover **patógenos e turbidez**. Não foi projetado para remover contaminantes químicos dissolvidos. Conhecer estas limitações é essencial para não ter uma falsa sensação de segurança.

| Contaminante | Removido pelo biosand? | Método complementar recomendado |
|---|---|---|
| **Protozoários** (Giardia, Crypto) | ✅ >99% | — |
| **Bactérias** (E. coli, Vibrio, Salmonella) | ✅ 90–99% | Fervura ou cloro para o 1–10% residual |
| **Vírus** (hepatite A, rotavírus) | ⚠️ 80–90% | Fervura ou cloro (vírus são mais resistentes) |
| **Turbidez** (argila, silte) | ✅ >95% | — |
| **Ferro / manganês** | ⚠️ 70–90% | Para níveis altos: oxidação com aeração + decantação antes do biosand |
| **Metais pesados** (chumbo, mercúrio, cádmio, cromo) | ❌ NÃO remove significativamente | **Carvão ativado** ou destilação |
| **Arsênio** | ❌ NÃO remove | Coagulação com sulfato de alumínio + decantação; ou osmose reversa; ou buscar fonte alternativa de água. **ATENÇÃO RS:** aquíferos profundos no Sul do Brasil podem conter arsênio natural (Embrapa, 2018). |
| **Flúor** | ❌ NÃO remove | Adsorção com alumina ativada (improvável acesso em colapso); ou destilação; ou fonte alternativa |
| **Sal** (cloreto de sódio) | ❌ NÃO remove | **Apenas destilação** (solar ou com fogo) |
| **Agrotóxicos / pesticidas** | ❌ NÃO remove significativamente | **Carvão ativado** (preferencialmente industrial; caseiro tem capacidade limitada) |
| **Compostos orgânicos voláteis** (benzeno, tolueno, gasolina) | ❌ NÃO remove | Carvão ativado; **nunca ferva** (volatiliza os compostos, mas você os respira — risco de intoxicação por inalação) |
| **Fármacos** (antibióticos, hormônios) | ❌ NÃO remove | Carvão ativado ou destilação |
| **Cianobactérias e cianotoxinas** | ⚠️ Remove as células (>99%), mas **não remove toxinas dissolvidas** (microcistinas) | **NÃO use água com floração de cianobactérias.** Se for a única opção: carvão ativado + fervura (toxinas são estáveis ao calor). |
| **Radioisótopos** | ❌ NÃO remove | Destilação (para água); partículas em suspensão podem ser removidas pelo biosand, mas isótopos dissolvidos, não. |
| **Nitrato / nitrito** | ❌ NÃO remove | Carvão ativado tem capacidade limitada. Osmose reversa ou destilação. Ferver água com nitrato **concentra** o contaminante (evapora água, nitrato fica). |
| **Cloro residual** (água da rede) | ✅ Remove parcialmente (biolayer consome cloro) | Deixar a água clorada repousar 24h em recipiente aberto antes do filtro (protege a biolayer). |

### 6.2 Pré-tratamentos para água com contaminantes específicos

#### 6.2.1 Água com alta turbidez (> 20 NTU)

Água muito barrenta (comum no Guaíba e afluentes durante chuvas intensas) entupirá o filtro biosand em dias ou horas. É necessário pré-tratamento:

**Método 1 — Decantação simples (12–24 horas):**
1. Encha um tambor ou baldes com água bruta.
2. Deixe repousar por **12–24 horas** em local fresco e escuro.
3. As partículas maiores sedimentam no fundo.
4. **Retire cuidadosamente a água sobrenadante (clara)** com mangueira (sifão) ou concha, sem perturbar o sedimento do fundo.
5. Descarte os últimos 10 cm (lodo).

**Método 2 — Coagulação natural (sementes de moringa):**
A moringa (Moringa oleifera) é uma árvore adaptada a climas tropicais e subtropicais, presente no Brasil. Suas sementes contêm uma proteína coagulante natural que aglutina partículas em suspensão, acelerando a decantação.

1. Descasque 3–5 sementes de moringa secas.
2. Amasse/moa até obter um pó fino.
3. Misture com 100 mL de água limpa em um frasco. Agite vigorosamente por 1 minuto.
4. Coe com pano para reter os sólidos da semente.
5. Adicione esta solução a 20 litros de água turva.
6. Agite rapidamente por 1 minuto, depois lentamente por 5 minutos.
7. Deixe repousar por **1–2 horas** (versus 12–24 horas sem moringa).
8. Os flocos decantam rapidamente. Recolha a água sobrenadante.

**Limitação:** a proteína da moringa adiciona matéria orgânica à água — se não for consumida em 24 horas, pode deteriorar. Use a água tratada com moringa imediatamente ou filtre-a.

**Método 3 — Pré-filtro de pano/tecido:**
Passe a água por um pano de algodão limpo (camiseta velha, pano de prato) dobrado em 4–8 camadas. Remove as partículas mais grosseiras e parte da turbidez. Lave o pano entre usos. Este método é rápido mas remove apenas partículas grandes.

**Método 4 — Pré-filtro de areia grosso (opcional, montagem dedicada):**
Construa um segundo tambor (ou balde grande de 50–100 L) com apenas:
- 10 cm de brita grossa (fundo)
- 30 cm de areia grossa (0,5–1,5 mm — NÃO areia fina)
- Placa difusora

Este pré-filtro remove o grosso da turbidez, poupando o filtro biosand principal de entupimento prematuro. A água sai ainda não-potável (sem biolayer na areia grossa), mas com turbidez baixa o suficiente para o biosand.

#### 6.2.2 Água pós-enchente (protocolo específico para o RS)

Água de enchente mistura esgoto, combustíveis, produtos industriais, carcaças de animais e sedimentos. É a situação mais extrema. Ver também [[3.5 - Tratamento de água em enchentes]].

**Protocolo pré-biosand para água de enchente:**

1. **Coleta:** colete a água da superfície mais limpa possível (a água decantada em poças, não a lama agitada).
2. **Pré-filtro grosso:** passe por pano de algodão dobrado (remove sólidos grandes, folhas, lodo).
3. **Decantação longa:** deixe repousar 24 horas em tambor. Se disponível, use sementes de moringa.
4. **Carvão ativado:** passe por filtro de carvão ativado (se disponível) para remover químicos.
5. **Filtro biosand:** use como terceira barreira (remove patógenos e turbidez fina).
6. **Desinfecção final:** ferva (1–3 min) ou clore (dose dupla — 4 gotas/L).

> ⚠️ Se houver **mancha oleosa visível** ou **odor de combustível** na água, pule o filtro biosand — os hidrocarbonetos podem matar a biolayer e contaminar a areia permanentemente. Use apenas carvão ativado + destilação para esta água.

#### 6.2.3 Água com alta dureza / calcário

A água subterrânea em algumas regiões do RS (especialmente aquíferos calcários) pode ter alta dureza (carbonato de cálcio). Embora não seja um risco à saúde, pode:
- Dar gosto amargo à água
- Reduzir a eficiência do sabão para lavagem
- Incrustar a torneira e o tubo de saída com o tempo

**Pré-tratamento para dureza:**
- **Fervura** (abrandamento térmico): ferver a água precipita parte do cálcio como carbonato. Deixe esfriar, decante o precipitado branco do fundo, e use a água sobrenadante no biosand.
- **Cinza de madeira:** adicione cinza peneirada à água (1 colher de sopa por 20 L). O carbonato de potássio da cinza reage com o cálcio, precipitando-o. Decante o precipitado.

> ⚠️ A fervura para abrandamento consome combustível. Só vale a pena se a dureza for extrema a ponto de tornar a água intragável.

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## 7. Considerações Específicas para o Rio Grande do Sul

### 7.1 Fontes de areia na região de Porto Alegre

#### Areia de rio (Guaíba, Jacuí, Caí, Sinos)

A Depressão Central do RS é rica em depósitos fluviais de areia quartzosa. As areias dos rios da bacia do Guaíba são predominantemente quartzosas (sílica > 90%), com grãos subangulares a subarredondados, adequadas para filtro biosand.

**Requisitos de lavagem mais rigorosos:**
- O Guaíba e afluentes próximos a Porto Alegre recebem efluentes urbanos e industriais. A areia coletada nestes locais pode conter **metais pesados adsorvidos** (cromo, cobre, zinco — resíduos industriais e de curtumes) e **coliformes**.
- **Lavagem obrigatória** com água limpa (não a mesma água do rio onde a areia foi coletada).
- Se possível, colete areia **a montante** dos centros urbanos (ex.: Jacuí acima de Cachoeira do Sul, Caí acima de São Sebastião do Caí).
- Areia de **barranco** (depósito fluvial antigo, longe da margem atual) tende a ser mais limpa que areia do leito ativo do rio.

**Alternativa — Areia de pedreira (britada):**
- Pedreiras de granito e basalto no RS produzem areia artificial (brita graduada). Esta areia é mais **angular** (melhor para adsorção), mas contém muito **pó de britagem** que precisa ser lavado.
- Verifique se a pedreira não usa produtos químicos no processo (algumas usam floculantes ou surfactantes).

**Alternativa — Areia de construção (lojas de material):**
- Areia média ou fina lavada de loja de construção é aceitável se for **lavada adicionalmente** (a "lavada" comercial é apenas um enxágue grosseiro).
- Verifique visualmente: se você pegar um punhado e esfregar, não deve soltar pó nas mãos.

**Onde NÃO coletar areia:**
- Praias e margens a jusante de indústrias químicas (Polo Petroquímico de Triunfo, fábricas em Canoas, Gravataí)
- Próximo a curtumes (resíduos de cromo)
- Arroios urbanos (Dilúvio, Feijó, etc.) — altamente contaminados
- Qualquer local com odor químico, coloração anormal da água ou resíduos industriais visíveis

### 7.2 Água de enchente — Tratamento especial (RS)

As enchentes são o cenário mais provável de necessidade de purificação de água em Porto Alegre. O lago Guaíba e seus afluentes transbordam periodicamente, e a água de enchente é uma sopa de contaminantes.

**Contaminantes típicos da água de enchente no RS:**
- **Esgoto bruto:** estação de tratamento de esgoto (ETE) transborda; fossas sépticas são inundadas; rede de coleta rompe
- **Combustíveis:** postos de gasolina inundados; veículos submersos; tanques de armazenamento rompidos
- **Produtos industriais:** polo petroquímico, indústrias de curtume, metalurgia
- **Agrotóxicos:** arraste de lavouras de arroz na região metropolitana
- **Carcaças de animais:** leptospirose, salmonela, E. coli
- **Lodo e sedimentos:** turbidez extrema

**Por que o filtro biosand sozinho é insuficiente para água de enchente:**
- O excesso de matéria orgânica consumirá todo o oxigênio da água, tornando o ambiente do filtro anaeróbico (cheiro de ovo podre, falha da biolayer)
- Hidrocarbonetos grudam nos grãos de areia e matam a biolayer
- A turbidez extrema entupirá o filtro em horas
- Metais pesados e químicos dissolvidos não são removidos

**Protocolo completo para água de enchente → biosand:**

```
ÁGUA DE ENCHENTE
       │
       ▼
┌──────────────────────┐
│ 1. PRÉ-FILTRO GROSSO │  ← Pano de algodão dobrado (4-8 camadas)
│    (pano / camiseta) │     Remove sólidos grandes, lodo, detritos
└──────────┬───────────┘
           ▼
┌──────────────────────┐
│ 2. DECANTAÇÃO 24h    │  ← Tambor com água em repouso
│    (com moringa se   │     Partículas sedimentam
│     disponível)      │     Descarte lodo do fundo
└──────────┬───────────┘
           ▼
┌──────────────────────┐
│ 3. CARVÃO ATIVADO    │  ← Filtro de carvão (15-20 cm)
│    (se suspeita de   │     Remove químicos, metais, odores
│     contaminação     │
│     química)         │
└──────────┬───────────┘
           ▼
┌──────────────────────┐
│ 4. FILTRO BIOSAND    │  ← Remove patógenos e turbidez fina
│    (areia 50 cm)     │
└──────────┬───────────┘
           ▼
┌──────────────────────┐
│ 5. DESINFECÇÃO FINAL │  ← Fervura (3 min) OU cloro (dose dupla)
│    (fervura ou cloro)│     Garante eliminação de vírus e bactérias
└──────────┬───────────┘           resistentes
           ▼
     ÁGUA POTÁVEL
```

> ⚠️ Este protocolo de 5 etapas é para situações de **emergência extrema** (sem alternativa de fonte de água). Sempre que possível, busque fontes alternativas (água da chuva, poço não inundado, água mineral armazenada) antes de recorrer a água de enchente.

### 7.3 Operação no inverno gaúcho

Porto Alegre tem invernos amenos (média de 10–14 °C), mas pode haver geadas e temperaturas abaixo de 0 °C em ondas de frio (especialmente em junho–agosto). A temperatura afeta o filtro biosand de duas maneiras:

**Efeitos do frio no filtro:**
1. **Metabolismo da biolayer:** a atividade microbiana diminui com a temperatura. Abaixo de 10 °C, a eficiência de remoção de patógenos pode cair 10–20%. Ainda funciona, mas não tão bem.
2. **Congelamento:** se a água dentro do filtro congelar, a expansão do gelo pode:
   - Romper o tambor (aço se deforma, plástico pode rachar)
   - Danificar a tubulação PVC (torna-se quebradiça no frio)
   - Matar a biolayer completamente (ciclos de congelamento/descongelamento destroem o biofilme)

**Estratégias de proteção contra frio (graves apenas em ondas de frio intenso):**

1. **Isolamento do tambor:**
   - Enrole o tambor com manta de fibra de vidro, lã de carneiro, cobertores velhos, sacos de aniagem, ou jornal (várias camadas).
   - Amarre com corda. Proteja da chuva com lona plástica (a umidade no isolamento reduz sua eficácia).
   - Opção: construa uma "caixa" de madeira ao redor do tambor e preencha com serragem, palha ou isopor picado (excelente isolamento).

2. **Localização protegida:**
   - Coloque o filtro em área protegida do vento sul (Minuano — vento frio típico do inverno gaúcho).
   - Se possível, dentro de um abrigo, galpão, garagem ou varanda fechada.
   - Enterrar parcialmente o tambor (40–50 cm no solo) — a temperatura do solo a 50 cm de profundidade é mais estável (~15 °C no inverno do RS).

3. **Operação reduzida:**
   - Em dias muito frios (< 5 °C), reduza a vazão esperada (o filtro naturalmente fluirá mais devagar porque a água fria é mais viscosa).
   - A maturação no inverno pode levar 4–6 semanas (em vez de 2–3). Seja paciente.

4. **Aquecimento passivo (opcional, avançado):**
   - Pintar o tambor de **preto fosco** (por fora) para absorver calor solar durante o dia.
   - Construir uma "estufa" simples ao redor do filtro com lona plástica transparente e estrutura de madeira — o efeito estufa mantém a temperatura interna vários graus acima da externa em dias ensolarados de inverno.
   - Deixar a água bruta em um tambor preto ao sol por algumas horas antes de despejar no filtro (pré-aquecimento solar).

> ⚠️ **NUNCA use fogo ou aquecedor próximo ao tambor de plástico** — risco de incêndio e derretimento. Tambor de aço pode ser aquecido externamente com fogo controlado, mas é uma operação arriscada e geralmente desnecessária no clima do RS.

### 7.4 Alta turbidez na estação chuvosa

O RS tem chuvas bem distribuídas, mas o período de **junho a setembro** concentra os maiores volumes. Durante e após chuvas intensas, rios e arroios carregam alta carga de sedimentos. A água muito turva (cor de café com leite) reduz a vida útil do filtro entre limpezas.

**Estratégias específicas para estação chuvosa no RS:**

1. **Estoque água em dias de baixa turbidez:** aproveite períodos de tempo seco para encher seu estoque de água bruta em tambores — use esta água mais limpa durante os dias de chuva.

2. **Ajuste a frequência de limpeza:** durante chuvas intensas, esteja preparado para fazer swirl-and-dump a cada 1–2 semanas (em vez de 1–2 meses na estação seca).

3. **Use pré-decantação dedicada:**
   - Mantenha 2–3 tambores de 200 L como "pré-decantadores".
   - Encha o primeiro tambor com água turva e deixe repousar 24 horas.
   - No dia seguinte, transfira a água sobrenadante para o segundo tambor.
   - No terceiro dia, esta água "duplamente decantada" vai para o filtro biosand.
   - Este sistema rotativo (3 tambores × 3 dias) fornece água pré-clarificada continuamente.

4. **Cobertura da fonte de areia:** se você tem um estoque de areia de reposição, mantenha-o coberto (lona) para não precisar lavar novamente areia que foi contaminada por chuva.

### 7.5 Verão — calor extremo e evaporação

Porto Alegre pode registrar temperaturas acima de 35 °C no verão (dezembro–março), com picos de 38–40 °C.

**Efeitos do calor:**
- Maior evaporação da lâmina d'água no filtro — monitore o nível com mais frequência.
- A água morna contém menos oxigênio dissolvido — risco de condições anaeróbicas na biolayer se a lâmina d'água for muito profunda.
- Água parada e morna é convite para mosquito da dengue (Aedes aegypti) — a tampa do filtro torna-se ainda mais crítica.

**Recomendações para verão:**
- Mantenha a lâmina d'água em exatamente 5 cm (não mais) — maximiza oxigenação.
- Posicione o filtro em sombra total (sob árvore ou telheiro).
- Verifique a tampa diariamente — qualquer abertura permite que mosquitos entrem.
- A biolayer se desenvolve mais rapidamente no calor (maturação pode ocorrer em 1–2 semanas em vez de 2–3).
- Tenha água de reposição disponível — a evaporação pode consumir 2–5 L/dia da lâmina d'água em calor extremo.

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## 8. Wikilinks e Navegação

- [[03_agua]] — Arquivo principal de água e saneamento
- [[3.2 - Captação de água da chuva]] — Sistemas de coleta de água pluvial
- [[3.5 - Tratamento de água em enchentes]] — Protocolo completo para emergências hídricas
- [[04_tecnicas_construcao]] — Técnicas gerais de construção para sobrevivência
- [[02_alimentacao]] — Água para irrigação, dessedentação de animais e processamento de alimentos
- [[05_fogo_energia]] — Combustível e energia para fervura de água
- [[07_clima]] — Padrões climáticos do RS (planejamento de captação e tratamento)
- [[01_saude]] — Doenças de veiculação hídrica comuns no RS

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## 9. Micropedia — Tópicos Rápidos

### 9.1 Glossário

| Termo | Definição |
|---|---|
| **Schmutzdecke** | Camada biológica que se forma na superfície da areia; biofilme complexo de microrganismos que remove patógenos. Do alemão "camada de sujeira". |
| **D10 (tamanho efetivo)** | Diâmetro da malha que deixa passar 10% (em peso) da areia. Parâmetro mais importante para filtro biosand. |
| **D60 / coeficiente de uniformidade** | Razão D60/D10. Indica a distribuição de tamanhos de grãos. Valores < 3 são ideais. |
| **Biolayer** | Sinônimo de schmutzdecke — a comunidade microbiana viva no topo da areia. |
| **Swirl-and-dump** | Método de limpeza do filtro: revolver a superfície da areia e remover a água suja sobrenadante. |
| **Air gap** | Espaço de ar entre a saída do filtro e o recipiente coletor — evita sifonamento reverso (re-contaminação). |
| **Manifold** | Tubo coletor que recebe água de múltiplos filtros em paralelo. |
| **Placa difusora** | Placa perfurada que dissipa a energia da água despejada, protegendo a biolayer de erosão. |
| **Maturação** | Período de 2–3 semanas em que a biolayer se desenvolve e o filtro atinge eficiência máxima. |
| **Turbidez** | Medida da transparência da água; partículas suspensas. Medida em NTU (unidades nefelométricas de turbidez). |
| **NTU** | Nephelometric Turbidity Units — unidade padrão de turbidez. Água potável: < 5 NTU. |

### 9.2 Tabela de decisão rápida — Qual tratamento usar?

| Situação da água bruta | Tratamento mínimo recomendado | Ideal (se recursos disponíveis) |
|---|---|---|
| Água de chuva recém-coletada (telhado limpo) | Filtro biosand | Biosand + SODIS |
| Água de rio (zona rural, sem indústria) | Decantação 12h + biosand | Decantação + biosand + fervura |
| Água de rio (zona urbana/industrial) | Decantação + carvão ativado + biosand + fervura | Igual ao mínimo |
| Água pós-enchente | Protocolo completo de 5 etapas (ver Seção 7.2) | Igual ao mínimo |
| Água de poço raso (< 15 m) | Biosand | Biosand + fervura (se houver casos de diarreia na comunidade) |
| Água de açude/lago rural | Biosand (com pré-filtro de pano se houver algas) | Biosand + SODIS |
| Água com odor/suspeita química | Carvão ativado + biosand + NÃO FERVER | Carvão + biosand + destilação |
| Água salobra | Apenas destilação | Destilação + carvão (para gosto) |

### 9.3 Dimensões de referência rápida — Tambor 200 L

| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Diâmetro interno | ~57–58 cm |
| Altura total | ~88–90 cm |
| Área superficial | ~0,25 m² |
| Volume de areia fina | ~70 litros (~100–120 kg) |
| Altura da areia | 50 cm |
| Altura total das camadas de drenagem | ~15 cm |
| Lâmina d'água operacional | 5 cm |
| Altura da saída (respiro) | 70 cm do fundo |
| Peso total cheio | ~220–250 kg |
| Vazão normal (maduro) | 20–40 L/hora |
| Produção diária (4h operação) | 80–160 L/dia |

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## 10. Fontes e Referências

### 10.1 Fontes primárias (manuais CAWST — domínio público)

- **CAWST — Biosand Filter Manual: Design, Construction, Installation, Operation and Maintenance** (2012, atualizado 2017). Centre for Affordable Water and Sanitation Technology, Calgary, Canadá. Disponível gratuitamente em PDF no site cawst.org. **Este é o manual de referência definitivo para filtro biosand.**

- **CAWST — Biosand Filter Construction Manual** (2011). Inclui diagramas detalhados, especificações de materiais e lista de ferramentas.

- **CAWST — Biosand Filter Implementation Toolkit** (2014). Guia para implementação comunitária em larga escala.

- **CAWST — WASH Education and Training Resources** (coleção completa). Mais de 50 documentos sobre água, saneamento e higiene em contextos de baixa tecnologia. Disponíveis em inglês, francês e espanhol (tradução para português parcial).

### 10.2 Literatura técnica de apoio

- **Manz, D.H.** (2007). "BioSand Water Filter Technology." In: *Water Supply and Sanitation for All*. IWA Publishing. — Artigo do inventor do design moderno de filtro biosand doméstico.

- **Stauber, C.E. et al.** (2006). "Characterization of the biosand filter for E. coli reductions from private drinking water supplies." *Water Research*, 40(10): 2027–2036. — Estudo científico sobre eficiência de remoção de E. coli (confirmou 90–99%).

- **Elliott, M., et al.** (2008). "Reductions of E. coli, echovirus type 12 and bacteriophages in an intermittently operated household-scale slow sand filter." *Water Research*, 42(10–11): 2662–2670. — Estudo sobre remoção de vírus (confirmou 80–90%).

- **Palmateer, G., et al.** (1999). "Controlled laboratory evaluation of the biosand filter for the removal of Giardia and Cryptosporidium." — Estudo sobre remoção de protozoários (confirmou >99%).

- **WHO — Guidelines for Drinking-water Quality** (4ª ed., 2017, com atualizações 2022). Organização Mundial da Saúde. Padrões globais de qualidade de água potável. Disponível offline via Kiwix (biblioteca offline).

- **WHO — Household Water Treatment and Safe Storage** (2015). Manual de tecnologias de tratamento doméstico de água, incluindo filtro biosand.

### 10.3 Recursos brasileiros e regionais

- **FUNASA — Manual de Saneamento** (4ª ed., 2015). Ministério da Saúde do Brasil. Disponível em PDF gratuito. Capítulos sobre tratamento de água e tecnologias simplificadas de saneamento.

- **Embrapa Clima Temperado** (Pelotas, RS). Publicações sobre recursos hídricos na metade sul do RS, qualidade de água em aquíferos e alternativas de saneamento rural.

- **FEPAM-RS** (Fundação Estadual de Proteção Ambiental). Dados de qualidade de água do Guaíba e afluentes. Disponíveis online (em situação de normalidade); recomenda-se baixar relatórios em PDF para uso offline.

- **CORSAN** (Companhia Riograndense de Saneamento). Informações técnicas sobre tratamento de água no RS.

- **Defesa Civil do RS** — Planos de contingência para enchentes. Disponíveis nos sites das prefeituras da região metropolitana.

### 10.4 Outras tecnologias complementares (manuais)

- **Hesperian Health Guides** — *"A Community Guide to Environmental Health"* (2012). Guia ilustrado com dezenas de tecnologias de água e saneamento para comunidades de baixa renda. Disponível offline via Kiwix.

- **CAWST — SODIS Manual** — Desinfecção solar da água. Complemento ideal ao filtro biosand como segundo estágio de desinfecção.

- **CAWST — Ceramic Filter Manual** — Filtro de cerâmica (vela). Alternativa/complemento ao biosand.

- **Practical Action** — *"Slow Sand Filtration"* (Technical Brief). Resumo técnico de 4 páginas sobre filtros de areia lentos.

### 10.5 Recomendações de download e armazenamento offline

Em cenário de sobrevivência/colapso, a internet pode não estar disponível. **Baixe estes documentos ANTES de precisar:**

1. **Pacote CAWST completo** (manuais de biosand, SODIS, implementação WASH) — cawst.org/resources
2. **WHO Guidelines for Drinking-water Quality** — Baixar via Kiwix ZIM file
3. **FUNASA Manual de Saneamento** — Disponível no site do Ministério da Saúde
4. **Hesperian — A Community Guide to Environmental Health** — Kiwix ZIM file
5. **Este arquivo markdown + todo o diretório 03_agua** — Copiar para múltiplos dispositivos e imprimir em papel

> 💡 **Imprima este guia.** Papel não requer eletricidade, não molha permanentemente (pode secar), e sobrevive a pulsos eletromagnéticos. Uma cópia impressa e plastificada (ou guardada em saco zip-lock) deste arquivo e dos diagramas ASCII é o backup definitivo.

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## 11. Lista de Verificação (Checklist) — Construção do Filtro Biosand

Use esta lista para garantir que nenhum passo foi esquecido:

### Fase 1 — Planejamento e materiais

- [ ] Selecionar recipiente adequado (tambor grau alimentício, verificado)
- [ ] Verificar se o recipiente NÃO conteve produtos químicos ou combustíveis
- [ ] Adquirir todos os materiais da lista (Seção 2.2.2)
- [ ] Adquirir ferramentas necessárias (Seção 2.2.2)
- [ ] Coletar areia de fonte confiável (Seção 7.1)
- [ ] Coletar brita de fonte confiável
- [ ] Preparar área de trabalho (espaço para lavar e peneirar materiais)
- [ ] Preparar local definitivo do filtro (base nivelada, sombra, próximo à fonte de água)

### Fase 2 — Preparação dos materiais

- [ ] Lavar toda a areia (6–10 ciclos de lavagem — Seção 2.3.1)
- [ ] Testar areia — água de lavagem deve ficar clara em < 1 minuto
- [ ] Peneirar areia para obter faixa 0,15–0,30 mm (Seção 2.3.2)
- [ ] Executar teste do frasco (sedimentação em 2–5 minutos — Seção 2.3.3)
- [ ] Lavar toda a brita (água sair limpa)
- [ ] Classificar brita nos 3 tamanhos (12–18 mm, 6–12 mm, 1,5–6 mm)
- [ ] Armazenar materiais lavados em local limpo

### Fase 3 — Montagem

- [ ] Nivelar base do filtro
- [ ] Cortar tambor (se necessário — Seção 2.2.3, Passo 1)
- [ ] Remover rebarbas e arestas cortantes (segurança!)
- [ ] Furar tambor para saída a 5 cm do fundo
- [ ] Instalar flange/vedação no furo
- [ ] Montar tubulação de saída interna (coletor sob placa de drenagem)
- [ ] Construir placa de drenagem (disco perfurado, diâmetro interno − 2 cm)
- [ ] Colocar camada de brita grossa (5 cm)
- [ ] Posicionar placa de drenagem
- [ ] Colocar camada de brita média (5 cm)
- [ ] Colocar camada de cascalho separador (5 cm)
- [ ] Opcional: colocar tela/manta entre cascalho e areia
- [ ] Colocar areia fina lavada (50 cm) — em camadas, sem compactar
- [ ] Nivelar superfície da areia
- [ ] Verificar altura da saída do respiro = altura da areia + 5 cm
- [ ] Construir e instalar placa difusora (suspensa ou flutuante)
- [ ] Montar tubulação de saída externa (respiro com Tê)
- [ ] Instalar tampa (removível, opaca)
- [ ] Verificar todas as conexões e vedações

### Fase 4 — Comissionamento

- [ ] Primeiro enchimento lento (balde por balde, sobre placa difusora)
- [ ] Deixar água saturar toda a areia (pode levar várias horas)
- [ ] Descarte da água das primeiras 24 horas
- [ ] Marcar data de início da maturação no calendário/registro
- [ ] Manter nível da água 5 cm acima da areia (diariamente)
- [ ] Medir vazão diariamente (registrar)
- [ ] Aguardar 2–3 semanas de maturação (NÃO beber água antes disso)
- [ ] Verificar formação da biolayer após 3 semanas (cor escura, textura gelatinosa)
- [ ] Confirmar água cristalina na saída
- [ ] Após maturação: consumir água (adultos saudáveis) ou combinar com 2º estágio

### Fase 5 — Operação contínua

- [ ] Estabelecer rotina de abastecimento (quem, quando, quanta água)
- [ ] Manter registro de operação (vazão, abastecimentos, limpezas)
- [ ] Realizar swirl-and-dump quando vazão cair abaixo de 20 L/h
- [ ] Após swirl-and-dump: aguardar 24–48h antes de beber
- [ ] Substituir areia superficial a cada 6–12 meses (se necessário)
- [ ] Substituir toda a areia a cada 2–3 anos (manutenção preventiva)
- [ ] Manter estoque de areia de reposição (20 L, lavada e classificada)
- [ ] Verificar e limpar placa difusora periodicamente
- [ ] Inspecionar tambor e tubulação (ferrugem, vazamentos, rachaduras)

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> 📘 **Este arquivo é parte da Biblioteca de Sobrevivência Offline — Porto Alegre, RS, Brasil.**
> Última atualização: 2026-08-03. Versão 1.0 (rascunho).
> Para correções, sugestões ou contribuições, registre na errata do [[00_INDICE_MESTRE]].
> Em caso de inconsistência com o manual CAWST original (Biosand Filter Manual, 2017), prevalece o manual CAWST.
