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titulo: "Doenças Tropicais e Subtropicais — Diagnóstico e Manejo no RS"
categoria: saude
tags: [survival, saude, doencas-tropicais, leptospirose, dengue, parasitoses, diagnostico, RS]
prioridade: alta
status: rascunho
atualizado: 2026-08-03
arquivo_principal: "[[01_saude]]"
aliases: ["Doenças tropicais e subtropicais — Diagnóstico e manejo no RS"]
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# Doenças Tropicais e Subtropicais — Diagnóstico e Manejo no Rio Grande do Sul

> Este guia expande as seções 9 (Doenças Comuns e Seu Manejo) e 10 (Acidentes com Animais Peçonhentos) do arquivo principal [[01_saude]].

## Visão Geral

O Rio Grande do Sul, por sua posição geográfica (clima subtropical, fronteira com Argentina e Uruguai, zona de transição entre os biomas Mata Atlântica e Pampa), possui um perfil epidemiológico peculiar que combina doenças típicas de regiões tropicais (dengue, leptospirose, parasitoses) com doenças de clima temperado. A presença do Lago Guaíba, dos rios da bacia do Jacuí, das áreas alagadiças do Delta do Jacuí e das enchentes recorrentes em Porto Alegre e região metropolitana cria condições ideais para diversas doenças de veiculação hídrica e transmitidas por vetores.

Em um cenário de colapso da infraestrutura de saúde, o diagnóstico dessas doenças dependerá exclusivamente da avaliação clínica (sinais e sintomas), sem exames laboratoriais. Este guia fornece critérios de diagnóstico diferencial e protocolos de manejo com recursos limitados — o que você pode fazer quando não há hospital, laboratório ou farmácia.

> ⚠️ Muitas das doenças aqui descritas requerem antibióticos ou antiparasitários específicos. O guia inclui tratamentos naturais de suporte, mas sinaliza claramente quando a condição é potencialmente fatal sem medicamentos específicos. Em caso de dúvida entre várias possibilidades diagnósticas, priorize o tratamento da condição MAIS GRAVE.

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## 1. Doenças Transmitidas por Vetores (Mosquitos, Carrapatos, Barbeiros)

### 1.1 Dengue

**Vetor:** *Aedes aegypti* (mosquito diurno, pica principalmente pela manhã e final da tarde). Adaptado ao ambiente urbano — reproduz-se em água limpa parada (pratos de vasos, calhas, pneus, caixas d'água destampadas).

**Situação no RS:** Endêmica. Epidemias anuais em Porto Alegre e região metropolitana desde ~2007. A presença do vetor está consolidada em todo o estado. No verão (dezembro–março), o risco é máximo.

**Período de incubação:** 4–10 dias após a picada.

**Fases clínicas:**

| Fase | Dias | Sinais e sintomas |
|---|---|---|
| Febril | D1–D3 | Febre alta SÚBITA (>39°C), dor de cabeça intensa (frontal/retro-orbitária — "atrás dos olhos"), dor muscular e articular generalizada ("febre quebra-ossos"), prostração intensa, náusea, vômitos. Pode haver rash (manchas vermelhas) no 2º–3º dia. |
| Crítica | D3–D6 | ⚠️ PERIGOSA. A febre CEDE (defervescência), mas é neste momento que pode ocorrer o extravasamento de plasma (dengue grave). Sinais de alarme: ver abaixo. |
| Recuperação | D6+ | Reabsorção dos fluidos extravasados. Pode haver rash de convalescência ("ilhas brancas em mar vermelho"). Fadiga prolongada (2–4 semanas). |

> ⚠️ **Sinais de alarme para dengue grave (hemorrágica) — evacuação URGENTE:**
> - Dor abdominal INTENSA e contínua
> - Vômitos PERSISTENTES (não consegue reter líquidos)
> - Sangramento de mucosas (gengiva, nariz, boca, vagina)
> - Sangue no vômito (hematêmese) ou fezes escuras (melena)
> - Letargia, confusão, agitação, sonolência excessiva
> - Fígado palpável >2 cm abaixo da costela
> - Aumento do hematócrito (se puder medir — indica hemoconcentração por extravasamento de plasma)
> - Hipotensão postural (tontura ao levantar)

**Manejo sem hospital:**

| Gravidade | Conduta |
|---|---|
| Dengue sem sinais de alarme (grupo A e B) | Repouso. Hidratação ORAL INTENSA: 60–80 mL/kg/dia (adulto 60 kg → 3,5–5 L/dia). Soro oral, água de coco, água + sucos, sopas. Uma parte com SRO (repor eletrólitos) e o restante com líquidos comuns. Paracetamol/Dipirona para dor e febre. ⚠️ NUNCA AAS/Aspirina (risco de hemorragia). ⚠️ NUNCA ibuprofeno/anti-inflamatórios (risco de hemorragia e nefrotoxicidade). Retorno diário para reavaliação até 48h após a febre ceder. |
| Dengue com sinais de alarme (grupo C) | ⚠️ Evacuação URGENTE. Enquanto transporta: hidratação oral agressiva (20 mL/kg em 2 horas), se a vítima tolerar. Monitorar sinais vitais. |
| Dengue grave (grupo D — choque, hemorragia grave, disfunção orgânica) | ⚠️ EMERGÊNCIA MÁXIMA. Sem UTI, a mortalidade é alta. Hidratação endovenosa é essencial (cristaloides — soro fisiológico ou Ringer lactato). Ver seção de choque no [[Protocolos de emergência]]. |

**Complicações:**
- O extravasamento de plasma é a principal causa de choque na dengue.
- Hepatite (elevação de transaminases — a dengue ataca o fígado).
- Miocardite (inflamação do coração) — rara.
- Encefalite — rara.

**Diagnóstico diferencial da dengue:**
| Doença | Febre | Dor | Rash | Outros sinais distintivos |
|---|---|---|---|---|
| Dengue | Alta, súbita, cessa D3–D6 | Intensa, articular/muscular/retro-orbitária | Sim, 2º–3º ou 5º–7º dia | Prova do laço positiva (se puder fazer — ver abaixo) |
| Chikungunya | Alta, súbita | ARTICULAR INTENSA, simétrica, mãos e pés (edema, rigidez matinal) | Sim | Dor articular pode durar MESES |
| Zika | Baixa ou ausente | Leve | Sim (pruriginoso) | Conjuntivite não purulenta (olhos vermelhos sem pus) é sinal característico |
| Leptospirose | Alta | Panturrilhas (batata da perna) | Raro | Icterícia, sufusão conjuntival, contato com água de enchente |
| Malária | Alta, com calafrios CÍCLICOS (a cada 48–72h) | Intensa | Não | Ciclos de febre-calafrio-sudorese, esplenomegalia (baço aumentado) |
| Febre amarela | Alta, súbita | Intensa | Não (precoce) | Icterícia (pele amarela), hematêmese ("vômito negro"), oligúria |

**Prova do laço (teste de fragilidade capilar):**
1. Insufle o manguito de pressão até o ponto médio entre a pressão sistólica e diastólica (adulto: ~100 mmHg).
2. Mantenha por 5 minutos (criança: 3 minutos).
3. Desinsufle. Desenhe um quadrado de 2,5 × 2,5 cm no antebraço.
4. Conte as petéquias (pontinhos vermelhos) dentro do quadrado.
5. **Positivo se:** >20 petéquias em adultos, >10 em crianças. A prova do laço positiva indica fragilidade capilar e apoia o diagnóstico de dengue.

### 1.2 Zika Vírus

**Vetor:** *Aedes aegypti* (mesmo da dengue) e *Aedes albopictus* (potencial).

**Situação no RS:** Casos registrados desde 2015–2016 (epidemia brasileira). O vetor está presente e a transmissão é possível, embora menos intensa que no Nordeste.

**Período de incubação:** 3–14 dias.

**Sinais e sintomas:**
- Febre BAIXA ou AUSENTE (ao contrário da dengue).
- Rash maculopapular (manchas vermelhas elevadas) MUITO PRURIGINOSO — o prurido é a característica mais marcante!
- Conjuntivite NÃO PURULENTA (olhos vermelhos sem secreção amarela/esverdeada — apenas lacrimejamento).
- Artralgia (dor nas articulações) moderada, principalmente mãos e pés.
- Mialgia (dor muscular).
- Cefaleia leve.

**Duração:** 3–7 dias. Autolimitada e raramente grave.

**Manejo:**
- Repouso e hidratação.
- Anti-histamínicos (naturais: chá de camomila gelado em compressas, chá de urtiga se disponível) para o prurido.
- ⚠️ NUNCA AAS/Aspirina ou anti-inflamatórios (risco de síndrome hemorrágica, como na dengue — por precaução, já que a diferenciação clínica pode ser difícil).
- Paracetamol se houver febre ou dor.

> ⚠️ **Zika na gestação:** risco de microcefalia fetal. Gestantes devem ter proteção ABSOLUTA contra picadas de mosquito. Em cenário de emergência, o diagnóstico pré-natal de microcefalia depende de ultrassonografia (frequentemente indisponível).

### 1.3 Chikungunya

**Vetor:** *Aedes aegypti* e *Aedes albopictus*.

**Situação no RS:** Casos autóctones registrados. O vetor está presente e disseminado. O risco é crescente.

**Período de incubação:** 3–7 dias.

**Sinais e sintomas:**
- Febre alta súbita (>39°C).
- **POLIARTRALGIA SIMÉTRICA INTENSA** (dor em MÚLTIPLAS articulações, ambas as mãos, ambos os pés, joelhos, punhos, tornozelos). É a característica mais marcante!
- Edema articular (inchaço visível nas mãos e pés). Rigidez matinal.
- Rash maculopapular (50% dos casos).
- Cefaleia, mialgia, fadiga.

**Duração:**
- Fase aguda: 7–10 dias.
- ⚠️ Fase subaguda/crônica: a dor articular pode PERSISTIR POR MESES ou até ANOS após a infecção. É a complicação mais temida da Chikungunya. Pode ser incapacitante.

**Manejo:**
- Fase aguda: repouso articular. Hidratação. Compressas FRIAS nas articulações (reduzem inflamação e dor). Paracetamol para dor. ⚠️ NUNCA AAS ou anti-inflamatórios até excluir dengue.
- Fase crônica: cúrcuma + gengibre oral (anti-inflamatórios naturais, por tempo prolongado). Compressas QUENTES para alívio da rigidez. Exercícios leves de mobilização (após fase aguda).

### 1.4 Leptospirose

> ⚠️ **Esta é, provavelmente, a doença MAIS IMPORTANTE para o contexto de Porto Alegre e região metropolitana do RS.** Endêmica. Associada a enchentes, esgoto a céu aberto, contato com água contaminada com urina de rato. Após as enchentes de 2024 no RS, os casos dispararam.

**Agente:** Bactéria *Leptospira interrogans* (espiroqueta — penetra pele íntegra ou com microlesões, e mucosas).

**Reservatório:** Ratos urbanos (*Rattus norvegicus* — ratazana de esgoto) — eliminam leptospira na urina por toda a vida, contaminando água e solo.

**Período de incubação:** 5–14 dias (pode ser de 2 a 30 dias).

**Fases clínicas:**

| Fase | Dias | Manifestações |
|---|---|---|
| **Leptospiremia** (fase aguda) | D1–D7 | Febre alta SÚBITA, calafrios, CEFALEIA INTENSA, MIALGIA INTENSA (principalmente PANTURRILHAS — batata da perna, e região lombar), sufusão conjuntival (olhos vermelhos sem secreção — igual Zika, por isso a importância da história de exposição a água de enchente), náusea, vômitos, diarreia. Pode haver tosse seca e rash. |
| **Fase imune** (grave, 5–15% dos casos) | D4–D30 | ⚠️ **Síndrome de Weil** (forma grave): ICTERÍCIA (pele amarela — a icterícia é tipicamente RUBÍNICA — tom alaranjado, "cor de açafrão"), INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA (diminuição ou ausência de urina), HEMORRAGIAS (pulmonar é a mais temida — tosse com sangue, escarros hemoptoicos), alteração do nível de consciência, choque. ⚠️ MORTALIDADE >40% na forma grave sem tratamento. |

> ⚠️ **Sinais que indicam FORMA GRAVE (evacuação URGENTÍSSIMA):**
> - Icterícia (olhos amarelos, pele amarelada)
> - Diminuição do volume urinário (oligúria — <500 mL/dia) ou anúria (ausência de urina)
> - Tosse com sangue (hemoptise — indica hemorragia pulmonar)
> - Dispneia (falta de ar)
> - Hipotensão / choque
> - Alteração do nível de consciência

**Manejo:**
- ⚠️ A leptospirose REQUER ANTIBIÓTICO. Sem antibiótico, a mortalidade na forma grave é >40%, e na forma leve há risco de evoluir para grave.
- Antibiótico de escolha (se disponível): **Doxiciclina 100 mg, 2×/dia, por 7 dias** (adulto). Alternativas: Amoxicilina 500 mg 3×/dia ou Penicilina G cristalina (endovenosa para casos graves).
- Tratamento de suporte: hidratação vigorosa, monitoramento renal (volume urinário), monitoramento respiratório (hemorragia pulmonar).
- Profilaxia pós-exposição (se teve contato com água de enchente e está em área endêmica): Doxiciclina 200 mg, dose única semanal, enquanto durar a exposição.

**Diagnóstico diferencial da icterícia febril (febre + olhos amarelos):**
| Doença | Febre | Dor | Característica distintiva |
|---|---|---|---|
| Leptospirose grave | Alta, início súbito | Panturrilhas INTENSA | Contato com água de enchente. Icterícia rubínica. |
| Febre amarela | Alta, súbita | Generalizada | ⚠️ HEMATÊMESE ("vômito negro"), ausência de dor em panturrilhas. Pulso dissociado da temperatura (febre alta + pulso lento — Sinal de Faget). |
| Hepatite viral | Moderada ou ausente | Leve | Icterícia + colúria (urina escura como coca-cola) + acolia fecal (fezes claras, cor de massa de vidraceiro). Sem dor em panturrilhas. |
| Malária grave | Alta, com calafrios cíclicos | Generalizada intensa | Icterícia + esplenomegalia (baço grande). Ciclos febris regulares. |

### 1.5 Febre Amarela

**Vetores:**
- Ciclo urbano (erradicado no Brasil desde 1942, mas com RISCO DE REINTRODUÇÃO): *Aedes aegypti*.
- Ciclo silvestre (ativo): *Haemagogus* e *Sabethes* (mosquitos de mata). Macacos são os hospedeiros (NÃO transmitem diretamente — são "vítimas" como os humanos).

**Situação no RS:** ⚠️ O RS está na zona de RISCO de expansão da febre amarela. A partir de 2008, a doença reemergiu no Sul e Sudeste do Brasil, alcançando Santa Catarina e o norte do RS. Macacos mortos na região são SENTINELA — indicam circulação do vírus.

**Período de incubação:** 3–6 dias.

**Sinais e sintomas (formas clínicas):**
| Forma | Manifestações |
|---|---|
| Leve (90%) | Febre, cefaleia, mialgia, náusea. Cura em 3–4 dias. |
| Moderada | Febre alta + icterícia + hematêmese (vômito em "borra de café" ou com sangue vivo) + epistaxe (sangramento nasal) + gengivorragia. ⚠️ SINAL DE FAGET: pulso LENTO apesar da febre ALTA (dissociação pulso-temperatura). |
| Grave (maligna) | Icterícia intensa + hemorragia massiva + insuficiência renal aguda + insuficiência hepática + choque + coma. ⚠️ MORTALIDADE 50–60%. |

**Manejo:**
- ⚠️ NÃO há antiviral específico. Tratamento é suporte INTENSIVO (UTI).
- Hidratação vigorosa.
- ⚠️ Evacuação URGENTE.
- **Prevenção (vacina):** a vacina antiamarílica (17D) é segura e eficaz (dose única, proteção vitalícia). É uma das vacinas mais importantes para ter no seu cartão de vacinação. Em cenário sem vacina, a prevenção de picadas é a ÚNICA defesa.

> ⚠️ **Macacos NÃO transmitem febre amarela.** Eles são vítimas do vírus, assim como humanos. Macacos mortos na mata são sinal de que o vírus está circulando ali — NÃO mate macacos. Notifique às autoridades (se possível) e EVITE a área.

### 1.6 Malária

**Situação no RS:** O RS NÃO é área endêmica de malária (a transmissão autóctone está restrita à Amazônia Legal). No entanto, em cenário de colapso, deslocamentos populacionais podem trazer pessoas infectadas de áreas endêmicas. A presença de mosquitos *Anopheles* (vetor) no RS existe, e a reintrodução é teoricamente possível se houver casos importados + vetor.

**Período de incubação:** 7–30 dias (P. falciparum), 15–40 dias (P. vivax).

**Sinal clínico PATOGNOMÔNICO:** Febre com CALAFRIOS CÍCLICOS, seguidos de SUDORESE profusa, em intervalos regulares (a cada 48 horas = febre terçã; a cada 72 horas = febre quartã). Durante o acesso malárico: frio intenso com tremores (15–60 min) → calor/febre alta (2–6 horas) → sudorese profusa + exaustão. O ciclo repete-se no mesmo horário a cada 48 ou 72 horas.

**Outros sinais:** Esplenomegalia (baço palpável no abdômen esquerdo), anemia (palidez), icterícia, urina escura (hemoglobinúria).

> ⚠️ **Malária por P. falciparum:** é a forma GRAVE — pode evoluir para malária cerebral (convulsões, coma), insuficiência renal, edema pulmonar, choque. MORTALIDADE ALTA sem tratamento específico. Requer antimaláricos (artemisinina combinada, quinina, cloroquina — dependendo da espécie e região).

### 1.7 Doença de Chagas (Tripanossomíase Americana)

**Agente:** *Trypanosoma cruzi* (protozoário).

**Vetor:** **Barbeiro** (*Triatoma infestans*, *Panstrongylus megistus*, entre outros). Inseto hematófago noturno que pica o rosto (daí "barbeiro"). Defeca durante a picada — as fezes contêm o parasita. A pessoa, ao coçar, introduz o parasita na pele.

**Situação no RS:** ⚠️ O RS é área ENDÊMICA histórica de doença de Chagas. Embora o controle vetorial tenha reduzido drasticamente a transmissão domiciliar desde os anos 1980–2000, focos residuais persistem em áreas rurais, especialmente nas regiões noroeste e central do estado. Casas de pau a pique (barro + madeira) são o habitat ideal dos barbeiros.

**Período de incubação:** 5–14 dias.

**Fase aguda (dura 4–8 semanas, muitas vezes ASSINTOMÁTICA):**
- **Sinal de Romaña** (PATOGNOMÔNICO quando presente): edema bipalpebral UNILATERAL (inchaço de UMA pálpebra), indolor, arroxeado, com linfonodos aumentados na região. Ocorre quando a porta de entrada foi a conjuntiva ocular.
- **Chagoma de inoculação:** lesão inflamatória endurecida no local da picada (qualquer parte do corpo).
- Febre, mal-estar, linfonodos aumentados, hepatoesplenomegalia.
- ⚠️ Miocardite aguda (rara): insuficiência cardíaca, arritmias. Pode ser fatal.
- ⚠️ Meningoencefalite (rara, mais comum em crianças <2 anos e imunossuprimidos): convulsões, coma.

**Fase crônica (décadas depois da infecção):**
- **Cardiopatia chagásica** (30% dos infectados): insuficiência cardíaca, arritmias, tromboembolismo, morte súbita por arritmia.
- **Megaesôfago** e **megacólon** (10%): dificuldade progressiva de engolir (disfagia), regurgitação, constipação intestinal crônica grave.
- O restante (60%) permanece na forma indeterminada (infectado, mas assintomático).

**Diagnóstico na fase aguda:** clínico-epidemiológico (Sinal de Romaña, chagoma de inoculação, história de contato com barbeiro). ⚠️ VERIFICAR se há possibilidade de fazer gota espessa ou teste rápido.

**Manejo:**
- Fase aguda: ⚠️ REQUER tratamento antiparasitário com Benznidazol ou Nifurtimox (disponíveis no SUS). Sem tratamento, a infecção torna-se crônica (para o resto da vida).
- Fase crônica: manejo das complicações (cardíacas e digestivas).

**Prevenção:**
- Melhoria habitacional (substituir pau a pique por alvenaria, rebocar paredes).
- Mosquiteiros, telas em janelas.
- NÃO dormir em casas de pau a pique em áreas endêmicas sem inspecionar frestas (barbeiros se escondem em frestas de paredes e telhados durante o dia e saem à noite para picar).
- ⚠️ **Como identificar um barbeiro:** inseto de 1,5–3,5 cm, corpo alongado, cabeça cônica com probóscide (aparelho sugador) reta, antenas, coloração escura com manchas laterais (amarelas, alaranjadas, vermelhas). Diferente do percevejo predador (que é benéfico), o barbeiro tem cabeça mais alongada e o rostro (probóscide) é RETO e atinge o primeiro par de patas.

### 1.8 Leishmaniose

**Situação no RS:** A leishmaniose visceral (calazar) e a tegumentar (cutânea) estão em EXPANSÃO no RS. Porto Alegre e região metropolitana registram casos autóctones.

**Leishmaniose tegumentar (cutânea):**
- Lesão ÚLCERADA na pele, geralmente em áreas expostas (braços, pernas, face).
- A úlcera é INDOLOR (isso diferencia de infecções bacterianas — que doem), com bordas elevadas e fundo granuloso.
- Pode haver linfonodos aumentados na cadeia de drenagem.
- Sem tratamento, a úlcera pode persistir por meses ou curar espontaneamente (deixando cicatriz).
- ⚠️ A forma mucocutânea (mais grave, associada à L. braziliensis) pode causar destruição do septo nasal, palato e faringe ANOS depois da lesão cutânea inicial.

**Leishmaniose visceral (calazar):**
- ⚠️ GRAVE, potencialmente FATAL sem tratamento.
- Febre prolongada (>2 semanas), IRREGULAR.
- Hepatoesplenomegalia (fígado e baço AUMENTADOS — o baço pode atingir tamanhos enormes, palpável no abdômen).
- Emagrecimento progressivo, fraqueza, anemia (palidez intensa).
- Pancitopenia (anemia + leucopenia + plaquetopenia) → sangramentos, infecções secundárias.
- Sem tratamento específico (antimoniato de meglumina ou anfotericina B), a letalidade é >90%.

### 1.9 Doença de Lyme-Símile (Síndrome Baggio-Yoshinari)

**Agente:** Espiroqueta da família Borrelia (semelhante à Borrelia burgdorferi, mas possivelmente espécies diferentes no Brasil).

**Vetor:** Carrapato-estrela (*Amblyomma cajennense*) e outros carrapatos.

**Situação no Brasil:** ⚠️ CONTROVERSA. A "doença de Lyme brasileira" (Síndrome Baggio-Yoshinari) é reconhecida por alguns pesquisadores brasileiros, mas o diagnóstico é difícil e controverso internacionalmente. A existência da doença de Lyme clássica (Borrelia burgdorferi sensu stricto) no Brasil é questionada. ⚠️ VERIFICAR.

**Sinais (se considerar a forma brasileira):**
- Eritema migrans (mancha vermelha que expande ao redor da picada do carrapato, com clareamento central — aspecto de "alvo"). Surge 3–30 dias após a picada.
- Febre, fadiga, cefaleia, mialgia, artralgia.
- Se não tratada: artrite (joelhos), cardite, neuroborreliose (paralisia facial, meningite).

**Manejo:**
- Remoção PRECOCE do carrapato (em <24 horas, o risco de transmissão é muito baixo).
- ⚠️ Se houver antibiótico: Doxiciclina 100 mg 2×/dia por 14–21 dias (adulto). Amoxicilina para crianças e gestantes.

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## 2. Doenças de Veiculação Hídrica e Alimentar

Estas doenças são PARTICULARMENTE relevantes após enchentes e em cenários de colapso do saneamento básico — situação que Porto Alegre enfrenta regularmente.

### 2.1 Hepatite A (VHA)

**Transmissão:** Fecal-oral (água e alimentos contaminados com fezes). Altíssima contagiosidade. Surtos comuns pós-enchente e em áreas sem saneamento.

**Período de incubação:** 15–50 dias (média 28 dias).

**Sinais e sintomas:**
- Pródromo (3–7 dias antes da icterícia): febre, mal-estar, fadiga, náusea, vômitos, dor abdominal, cefaleia.
- Fase ictérica: **ICTERÍCIA** (olhos e pele amarelos — sinal mais marcante), **COLÚRIA** (urina escura, "cor de coca-cola" ou "cor de chá preto" — aparece ANTES da icterícia), **ACOLIA FECAL** (fezes claras, cor de massa de vidraceiro, cinza-esbranquiçadas — aparece DEPOIS), hepatomegalia (fígado palpável e DOLOROSO), prurido (coceira na pele — por acúmulo de sais biliares).
- Em crianças <6 anos: 70% são ASSINTOMÁTICAS ou têm sintomas leves inespecíficos. Em adultos: 70% têm icterícia.

**Duração:** 2–8 semanas. A convalescência é longa (fadiga persistente por meses).

**Manejo:**
- ⚠️ NÃO há tratamento específico. A doença é autolimitada.
- Repouso ABSOLUTO (a atividade física durante a hepatite aguda PIORA o dano hepático).
- Dieta: evitar gorduras e álcool ABSOLUTAMENTE. Carboidratos leves (arroz, pão, frutas).
- Hidratação.
- ⚠️ NÃO use medicamentos metabolizados pelo fígado: paracetamol (acetaminofeno) é HEPATOTÓXICO em qualquer dose na hepatite aguda — ABSOLUTAMENTE CONTRAINDICADO.
- Plantas hepatoprotetoras (cuidado — eficácia limitada): boldo (em dose BAIXA), carqueja, cúrcuma.
- ⚠️ A hepatite A NÃO cronifica. A recuperação é completa em >99% dos casos.

**Prevenção:** Fervura ou cloração da água (ver [[03_agua]]), lavagem das mãos, saneamento. Vacina disponível (não incluída no calendário básico infantil do SUS, mas disponível em clínicas privadas).

### 2.2 Hepatite E (VHE)

Similar à hepatite A (fecal-oral), mas com uma diferença CRÍTICA: ⚠️ **em gestantes (especialmente 3º trimestre), a hepatite E tem MORTALIDADE de 20–25%** por hepatite fulminante. Se houver uma gestante com quadro de hepatite aguda em cenário de surto, considere hepatite E e priorize evacuação para recurso médico.

### 2.3 Febre Tifoide (*Salmonella* Typhi)

**Transmissão:** Água e alimentos contaminados com fezes humanas (portadores crônicos).

**Situação no RS:** ⚠️ VERIFICAR incidência atual, mas historicamente áreas sem saneamento adequado no Brasil apresentam casos. Pode haver surtos pós-enchente.

**Período de incubação:** 6–30 dias (média 8–14 dias).

**Sinais clínicos (clássicos):**
- **Febre em ESCADA** (sobe progressivamente a cada dia — hoje 38°C, amanhã 38,5°, depois 39°, depois 39,5°C...).
- Cefaleia, tosse seca, faringite (pode confundir com gripe na primeira semana).
- **Bradicardia relativa** (febre alta + pulso NORMAL ou LENTO — Sinal de Faget, igual febre amarela).
- **Roséolas tíficas** (2ª semana): pequenas manchas rosadas no TRONCO (abdômen e tórax), que empalidecem à pressão. ⚠️ Patognomônico quando presente.
- Hepatoesplenomegalia.
- **Diarreia ou constipação** (a febre tifoide classicamente causa CONSTIPAÇÃO nas primeiras semanas, seguida de diarreia "em sopa de ervilha" na 3ª semana).
- Complicação mais temida (3ª–4ª semana, sem tratamento): **hemorragia intestinal** e **perfuração intestinal** → peritonite → sepse → morte.

**Manejo:**
- ⚠️ REQUER antibiótico (cloranfenicol, ciprofloxacino, ceftriaxona). Sem antibiótico, mortalidade ~10–15%.
- Hidratação, dieta leve.

### 2.4 Cólera (*Vibrio cholerae*)

**Situação no RS:** Não endêmica, mas ⚠️ **surtos já ocorreram no Brasil, inclusive no Sul.** Em cenário pós-desastre com colapso total de saneamento, o risco de introdução existe.

**Período de incubação:** Curto — 2 horas a 5 dias (geralmente 12–48 horas).

**Sinais:**
- **DIARREIA "ÁGUA DE ARROZ"** (líquida, esbranquiçada, com muco, SEM sangue, em VOLUMES ENORMES — 1 L/hora em casos graves).
- **VÔMITOS EM JATO** (sem náusea precedente).
- **Desidratação FULMINANTE** — a vítima pode perder 10% do peso corporal em líquidos em 4–6 horas. Olhos fundos, sinal da prega (pele que não volta), voz débil, pulso ausente, choque.
- ⚠️ **MORTE em 6–12 horas sem reposição de fluidos.** É uma das doenças de evolução mais rápida que existe.

**Manejo:**
- ⚠️ REPOSIÇÃO VOLÊMICA AGRESSIVA: SRO (soro oral) ou, idealmente, soro endovenoso (Ringer lactato). O volume de reposição é MASSIVO — pode exigir >10 L/dia em casos graves.
- Antibiótico (se disponível): Doxiciclina 300 mg dose única (adulto) ou Azitromicina 1 g dose única. O antibiótico reduz a duração e o volume da diarreia, mas a reposição de fluidos é a PRIORIDADE — o paciente morre de desidratação, não da bactéria em si.
- ⚠️ Isolamento entérico rigoroso (fezes e vômitos são altamente contaminantes).

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## 3. Parasitoses Intestinais

Em cenário sem saneamento, as parasitoses intestinais são UBÍQUAS. A maioria causa morbidade crônica (desnutrição, anemia, déficit cognitivo em crianças), mas algumas podem causar complicações agudas graves.

### 3.1 Helmintos (Vermes)

| Parasita | Transmissão | Sintomas principais | Complicação grave | Tratamento (se disponível) | Tratamento natural |
|---|---|---|---|---|---|
| **Ascaris lumbricoides** (lombriga) | Fecal-oral (ovos em água/alimentos) | Dor abdominal, diarreia, náusea, emagrecimento. Pode eliminar vermes nas fezes ou vomitá-los. | ⚠️ **Obstrução intestinal por bolo de Ascaris** (crianças): cólica intensa, vômitos, parada de eliminação de fezes e gases. Pode exigir cirurgia. ⚠️ **Ascaris errático**: migra para vias biliares ou pâncreas → colangite, pancreatite. | Albendazol 400 mg DU (dose única) | Losna (curto prazo, <7 dias), sementes de abóbora |
| **Ancilostomíase** ("amarelão") | Larvas penetram pele (pés descalços em solo contaminado) | Anemia ferropriva (o verme suga sangue da mucosa intestinal), fraqueza, palidez, falta de ar. "Amarelão" vem da palidez amarelada. | Anemia grave (hemoglobina <5 g/dL) | Albendazol 400 mg DU | Suplementação de ferro (alimentos: fígado, beterraba, feijão) |
| **Oxiúros** (*Enterobius vermicularis*) | Fecal-oral, autoinfecção | Prurido ANAL INTENSO (noturno — o verme sai à noite para depositar ovos na região perianal). Irritabilidade, insônia. | Vulvovaginite em meninas (vermes migram). Infecção bacteriana secundária por coceira. | Albendazol 400 mg DU (repetir em 14 dias) | Alho + higiene rigorosa (lavar roupas de cama, unhas curtas) |
| **Tênias** (solitária) | Carne bovina (T. saginata) ou suína (T. solium) CRUA ou mal cozida | Dor abdominal, náusea, perda de peso. Eliminação de PROGLOTES (pedaços do verme achatados e móveis) nas fezes. | ⚠️ **Cisticercose** (T. solium): ingestão de OVOS → cisticercos se alojam no cérebro, olhos, músculos → **neurocisticercose**: convulsões, hidrocefalia, cegueira. | Albendazol + corticoide (para neurocisticercose, com supervisão médica) | Sementes de abóbora (efeito limitado a vermes adultos no intestino — NÃO trata cisticercose) |
| **Esquistossomose** | Caramujo + água doce contaminada com larvas (cercárias) que penetram a pele | Fase aguda: dermatite cercariana (coceira na pele), febre, tosse. Fase crônica: diarreia com sangue, hipertensão portal, ascite (barriga d'água). | Hipertensão portal, varizes esofágicas, cirrose. ⚠️ O RS NÃO é área endêmica de esquistossomose, mas casos importados podem existir. | Praziquantel | — |

> ⚠️ **VERMINOSES SÃO PREVENÍVEIS:** saneamento (não defecar a céu aberto, não usar fezes humanas como adubo sem compostagem adequada), lavar mãos antes de comer, lavar alimentos, cozinhar bem carnes, filtrar/ferver água, usar calçados. Em cenário de colapso, a reinfecção é constante — o tratamento em massa periódico (a cada 6 meses) é necessário se houver acesso a antiparasitários.

### 3.2 Protozoários

| Parasita | Transmissão | Sintomas | Diagnóstico diferencial | Tratamento (se disponível) | Tratamento natural |
|---|---|---|---|---|---|
| **Giardia lamblia** | Água contaminada (altamente resistente ao cloro na forma de cistos) | Diarreia aquosa, EXPLOSIVA, com esteatorreia (fezes gordurosas, brilhantes, amareladas, que boiam), cólica, distensão abdominal, flatulência fétida, náusea, perda de peso. | Fezes gordurosas que boiam = forte suspeita de giardíase. | Secnidazol 2 g DU ou Metronidazol 250 mg 3×/dia por 5 dias | Alho (limitado — os cistos são resistentes) |
| **Amebíase** (*Entamoeba histolytica*) | Fecal-oral | Diarreia com SANGUE e MUCO (disenteria amebiana), cólica, tenesmo (dor para evacuar). ⚠️ Complicação: abscesso hepático amebiano (febre alta, dor no hipocôndrio direito, hepatomegalia dolorosa — pode romper). | Disenteria (diarreia com sangue + muco) = amebíase até prova em contrário. | Metronidazol 500–750 mg 3×/dia por 7–10 dias | ⚠️ NENHUM tratamento natural é confiável para amebíase invasiva |
| **Criptosporidiose** (*Cryptosporidium*) | Água (resistente ao cloro — surtos em piscinas e sistemas de água) | Diarreia aquosa profusa, autolimitada em imunocompetentes (7–14 dias), MAS ⚠️ CRÔNICA E GRAVE em imunossuprimidos (HIV/AIDS, desnutridos). | Diarreia aquosa + imunossupressão. | Nitazoxanida. Em imunossuprimidos: controlar HIV (TARV) primeiro. | Hidratação intensa. Imunoestimulantes naturais (equinácea, alho, vitamina C). |

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## 4. Doenças Respiratórias Endêmicas e Sazonais no RS

### 4.1 Tuberculose (TB)

**Situação no RS:** O Brasil é um dos países de alta carga de TB no mundo. Porto Alegre e região metropolitana apresentam taxas historicamente elevadas, associadas a desigualdade social, aglomeração urbana e HIV/AIDS.

**Transmissão:** Aerossóis (tosse, espirro, fala) de pessoa com TB pulmonar ATIVA. Contato próximo e prolongado (domiciliar). NÃO se transmite por objetos, roupas ou talheres.

**Sinais e sintomas (TB pulmonar):**
- **TOSSE PERSISTENTE >3 SEMANAS** (sinal mais importante). Inicialmente seca, depois produtiva com escarro purulento ou HEMOPTOICO (raias de sangue).
- **FEBRE VESPERTINA** (febre baixa, 37,5–38,5°C, que aparece no final da tarde/início da noite).
- **SUDORESE NOTURNA** (acorda com o travesseiro e roupas encharcados de suor).
- **Emagrecimento** progressivo e inexplicado, perda de apetite (a TB é uma "doença consuntiva" — consome o corpo).
- Dor torácica, dispneia (casos avançados).

**Formas extrapulmonares:**
- **TB ganglionar:** linfonodos aumentados (principalmente cervicais — "íngua no pescoço"), endurecidos, indolores, que podem fistulizar (abrir e drenar pus).
- **TB pleural:** derrame pleural (líquido no espaço entre o pulmão e a parede torácica) → dor torácica, dispneia.
- **TB meníngea:** meningite subaguda com cefaleia progressiva, rigidez de nuca, confusão. ⚠️ A TB meníngea é gravíssima — alta mortalidade sem tratamento.

**Manejo:**
- ⚠️ A TB REQUER tratamento com MÚLTIPLOS ANTIBIÓTICOS por 6 meses (esquema RIPE: Rifampicina + Isoniazida + Pirazinamida + Etambutol por 2 meses, seguido de Rifampicina + Isoniazida por 4 meses). Não há tratamento natural para TB. A doença é progressivamente fatal sem antibióticos específicos.
- Isolamento respiratório do paciente (máscara, quarto separado e ventilado) nas primeiras 2 semanas de tratamento (período de maior contagiosidade).
- Nutrição e suporte: a TB é uma doença que CONSOME o corpo — nutrição adequada (proteína, calorias) é parte essencial do tratamento.

> ⚠️ **A TB é uma das doenças mais importantes para rastrear em cenários de aglomeração pós-desastre** (abrigos lotados). Tosse >3 semanas + febre vespertina + sudorese noturna + emagrecimento = TB até prova em contrário.

### 4.2 Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC)

**Agentes mais comuns:** *Streptococcus pneumoniae* (pneumococo — o mais comum em todas as idades), *Haemophilus influenzae*, vírus respiratórios. Em cenários de aglomeração e desnutrição, *Klebsiella pneumoniae* e *Staphylococcus aureus* tornam-se mais frequentes.

**Sinais — como diferenciar pneumonia de infecção respiratória alta (resfriado/gripe):**

| Sinal | Resfriado / Gripe | Pneumonia (suspeitar) |
|---|---|---|
| Febre | Moderada, <39°C | Alta (>39°C), com calafrios |
| Tosse | Seca ou produtiva clara | Produtiva com escarro purulento (amarelo, verde, ferruginoso) |
| Dor torácica | Ausente | **Dor PLEURÍTICA** (dor que PIORA ao respirar fundo ou tossir) |
| Frequência respiratória | Normal ou pouco elevada | **TAQUIPNEIA** (>24/min adulto) — é o sinal MAIS SENSÍVEL de pneumonia! |
| Ausculta (com ouvido no tórax) | Normal | **Estertores/crepitações** (som de "velcro" ou "bolhas" no final da inspiração). Localizados em 1 área do pulmão. |
| Tiragem intercostal | Ausente | Pode estar presente (esforço respiratório) |
| Estado geral | Comprometido mas funcional | Prostração intensa, confusão (idosos) |

**Manejo da pneumonia sem hospital:**
- ⚠️ Pneumonia bacteriana REQUER antibiótico. A mortalidade da pneumonia sem antibiótico é de 20–40% (era a principal causa de morte antes da penicilina).
- Antibiótico de escolha (adulto, se disponível): **Amoxicilina 500 mg 3×/dia por 7–10 dias** + **Azitromicina 500 mg/dia por 5–7 dias** (cobrir germes atípicos).
- Suporte: repouso absoluto em posição SEMI-SENTADA (facilita respiração), hidratação, vapor, mel (antitussígeno), guaco (broncodilatador leve).
- ⚠️ Se NÃO há antibiótico: o tratamento natural com alho (4–6 dentes/dia) + mel + guaco + gengibre + vapor é a ÚNICA opção. A chance de sucesso é menor, mas não é zero, especialmente em adultos jovens previamente saudáveis.

**Sinais de gravidade (pneumonia grave — evacuação urgente):**
- Frequência respiratória >30/min
- Cianose (lábios/leito ungueal azulados)
- Confusão mental ou letargia
- Hipotensão (sistólica <90 mmHg)
- Incapacidade de falar frases completas (dispneia intensa)
- Temperatura >40°C ou <35°C

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## 5. Doenças de Pele Endêmicas e Associadas a Aglomeração

### 5.1 Escabiose (Sarna)

**Agente:** *Sarcoptes scabiei* (ácaro).

**Transmissão:** Contato direto pele a pele prolongado (dormir na mesma cama, aglomeração). Roupas de cama e toalhas compartilhadas.

**Sinais:**
- **PRURIDO INTENSO** (coceira), principalmente NOTURNO (o ácaro é mais ativo à noite).
- **Lesões TÍPICAS:** pequenas pápulas (bolinhas) e **TÚNEIS** (linhas finas, esbranquiçadas ou acinzentadas, de 2–10 mm, ligeiramente elevadas, que representam o trajeto do ácaro sob a pele).
- **LOCALIZAÇÃO TÍPICA (PATOGNOMÔNICA):** espaços interdigitais das mãos (entre os dedos), punhos (face anterior), axilas, região periumbilical (ao redor do umbigo), nádegas, genitália masculina. **POUPA A CABEÇA em adultos** (em bebês, pode acometer couro cabeludo e face).
- Escoriações (arranhões) por coceira + infecção bacteriana secundária (impetigo).

**Manejo:**
- Tratamento tópico (se disponível): **Permetrina 5% creme**, aplicar do pescoço aos pés (corpo INTEIRO, inclusive genitália, nádegas, entre os dedos), deixar 8–14 horas (dormir com o produto), lavar. Repetir após 7 dias.
- Tratamento alternativo (natural): **ENXOFRE precipitado 5–10% em vaselina ou banha** (preparação magistral). Aplicar do pescoço aos pés por 3 noites consecutivas. É o tratamento tradicional mais antigo e ainda eficaz. Cheiro desagradável, mas funciona. ⚠️ Pode causar irritação na pele sensível.
- **Ivermectina oral** (se disponível): 200 μg/kg, dose única. Repetir em 7–14 dias.
- ⚠️ **TODAS as pessoas do mesmo domicílio devem ser tratadas SIMULTANEAMENTE**, mesmo que assintomáticas (período de incubação pode ser de 2–6 semanas antes do prurido aparecer).
- Lavar TODAS as roupas de cama, toalhas e roupas pessoais em água quente (>60°C) ou fervura. Secar ao sol forte. O ácaro sobrevive 2–3 dias fora do corpo humano.
- ⚠️ O prurido pode persistir por 2–4 semanas APÓS o tratamento bem-sucedido (reação alérgica aos ácaros mortos) — isso NÃO significa falha do tratamento.

### 5.2 Pediculose (Piolho)

**Agentes:** *Pediculus humanus capitis* (piolho de cabeça), *Pediculus humanus corporis* (piolho do corpo), *Pthirus pubis* (chato).

**Transmissão:** Contato direto, compartilhamento de pentes, roupas, roupas de cama.

**Sinais:**
- Prurido no couro cabeludo (nuca e atrás das orelhas são áreas preferenciais).
- Presença de LÊNDEAS (ovos) grudadas na base dos fios de cabelo — pequenos pontos esbranquiçados/acastanhados, ovais, que NÃO se soltam facilmente (diferente de caspa ou resíduos de cabelo que deslizam).
- Piolho do corpo: prurido generalizado no tronco, com escoriações. Os piolhos vivem nas costuras e dobras das roupas (não no corpo). ⚠️ O piolho do corpo é VETOR de TIFO EXANTEMÁTICO (*Rickettsia prowazekii*), febre das trincheiras (*Bartonella quintana*) e febre recorrente (*Borrelia recurrentis*) — doenças que emergem em cenários de guerra, fome, aglomeração e colapso de higiene.

**Manejo:**
- **Piolho de cabeça:** catação manual com pente fino (pente para lêndeas) é o método mais eficaz SEM inseticidas. Fazer a cada 2–3 dias por 2 semanas. Vinagre (ácido acético) dissolve a substância que gruda as lêndeas ao cabelo — aplicar vinagre diluído (1:1 com água) por 30 min antes de pentear. Óleo de coco ou azeite aplicado abundantemente, cobrir com touca por 2–4 horas (sufoca os piolhos adultos).
- **Piolho do corpo:** ferver as roupas e roupas de cama. Banho com água e sabão. O piolho do corpo é erradicado com HIGIENE — não requer inseticidas.
- **Chato:** depilação dos pelos pubianos + permetrina.

### 5.3 Tungíase (Bicho-de-pé)

**Agente:** *Tunga penetrans* (pulga).

**Situação no RS:** Presente em áreas rurais e periurbanas com solo arenoso e criação de animais (porcos, cães).

**Sinais:**
- Lesão na planta do pé (ou entre os dedos, ou unhas) — uma PÁPULA amarelada com PONTO ESCURO CENTRAL (que é a pulga incrustada na pele). Pode haver PRURIDO e dor.
- Pode haver múltiplas lesões (dezenas) em pés descalços.
- Complicação: **infecção bacteriana secundária** (a pulga é um corpo estranho) → celulite, abscesso e, em cenários extremos, **TÉTANO** (a porta de entrada da bactéria do tétano).

**Manejo:**
- **Extração da pulga:** com uma AGULHA LIMPA (flambada), remova cuidadosamente a pulga INTEIRA do interior da lesão. Não a rompa — se romper, os ovos são liberados na ferida e causam inflamação intensa. Após a extração, lave com água limpa e sabão, aplique antisséptico (álcool, iodo ou mel) e cubra.
- Calçados (a prevenção mais eficaz).

### 5.4 Impetigo e Ectima

**Agente:** *Staphylococcus aureus* e/ou *Streptococcus pyogenes* (estreptococo do grupo A).

**Transmissão:** Contato direto, lesões de pele preexistentes (picadas de inseto, escoriações, arranhões de sarna), aglomeração, má higiene.

**Impetigo (forma superficial — comum em crianças):**
- Lesões crostosas AMARELADAS ("cor de mel") ao redor da boca, nariz e em áreas expostas. Começam como bolhas que se rompem e formam crostas.
- Prurido e disseminação rápida para outras áreas (autoinoculação pelo ato de coçar).

**Ectima (forma profunda — mais grave):**
- Úlceras profundas, arredondadas, com bordas elevadas e fundo purulento/crostoso, nas pernas e nádegas. Cicatrizam lentamente deixando marcas.

**Manejo:**
- Limpeza com água morna e sabão para remover crostas.
- Tópico: **Mel** (eficácia comprovada para impetigo) — aplicar camada fina, cobrir com gaze. Trocar 2x/dia.
- ⚠️ Se houver múltiplas lesões ou disseminação: antibiótico oral se disponível (cefalexina 500 mg 4×/dia por 7 dias).
- Cortar unhas curtas (evitar autoinoculação).
- Higiene rigorosa.

> ⚠️ A infecção por *Streptococcus pyogenes* (estreptococo do grupo A) pode causar GLOMERULONEFRITE PÓS-ESTREPTOCÓCICA (edema matinal nos olhos e tornozelos, urina escura e espumosa, hipertensão) 2–3 semanas após a infecção de pele. Se uma pessoa que teve impetigo desenvolver inchaço e urina escura, é glomerulonefrite → evacuar.

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## 6. Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs)

Em cenário de colapso social, a violência sexual e a falta de acesso a preservativos podem causar surtos de ISTs.

### 6.1 Sífilis

**Agente:** *Treponema pallidum*.

**Estágios:**
| Estágio | Tempo após infecção | Sinais |
|---|---|---|
| **Primária** | 10–90 dias (média 21 dias) | **CANCRO DURO**: úlcera ÚNICA, INDOLOR, de bordas endurecidas e fundo LIMPO, na genitália, boca ou ânus. Linfonodos aumentados na região (íngua indolor). SOMA (some) espontaneamente em 3–8 semanas, mesmo SEM tratamento. Isso é perigoso — a pessoa pensa que "curou", mas a doença progride. |
| **Secundária** | 2–8 meses após cancro | **RASH no corpo INTEIRO**, incluindo PALMAS das mãos e PLANTAS dos pés (isso é PATOGNOMÔNICO! Quase nenhuma outra doença causa rash com essa distribuição). Febre, mal-estar, linfonodos generalizados, alopecia (queda de cabelo em "roído de traça"), verrugas planas em mucosas (condiloma plano). |
| **Latente** | Anos | Sem sintomas. Diagnóstico apenas por exame de sangue. |
| **Terciária** | 10–30 anos | ⚠️ Destruição de órgãos: **neurossífilis** (demência, paralisia, cegueira, "tabes dorsalis" — perda da propriocepção), **sífilis cardiovascular** (aneurisma de aorta), **gomas sifilíticas** (lesões granulomatosas destrutivas na pele, ossos, fígado). |

**Manejo:**
- ⚠️ Tratamento (se disponível): **Penicilina G benzatina** 2,4 milhões UI IM, dose única (sífilis primária/secundária/latente recente) ou 3 doses semanais (latente tardia/terciária). É o tratamento MAIS BARATO e eficaz.
- ⚠️ Gestantes: a sífilis na gestação causa aborto, natimorto ou **sífilis congênita** (surdez, cegueira, deformidades ósseas, morte neonatal). O rastreamento de sífilis em TODA gestante é prioridade.
- Tratamento natural: ⚠️ NENHUM tratamento natural é confiável para sífilis. A espiroqueta penetra o SNC e sobrevive em locais onde nenhum fitoterápico alcança.

### 6.2 Cancro Mole (Cancroide)

**Agente:** *Haemophilus ducreyi*. Mais comum em regiões tropicais.

**Sinais:** Úlcera genital DOLOROSA (diferente do cancro duro da sífilis, que é indolor), com bordas irregulares e fundo purulento. Pode ser MÚLTIPLA (diferente da sífilis, que costuma ser única). Linfonodos aumentados e DOLOROSOS na virilha (íngua), que podem supurar (bubão).

**Manejo sem antibiótico:** limpeza com água limpa e sabão, compressas mornas para drenagem do bubão, mel (tópico na úlcera).

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## 7. Tétano

**Agente:** *Clostridium tetani* (bactéria anaeróbica, formadora de esporos, onipresente em solo, poeira, fezes de animais).

**Porta de entrada:** QUALQUER ferimento (mesmo mínimo — farpa, prego, espinho, corte com lata, queimadura, ferimento cirúrgico, parto sem higiene). **O tétano NÃO se transmite de pessoa para pessoa.**

**Período de incubação:** 3–21 dias (média 7–8 dias). ⚠️ Quanto MAIS CURTO o período de incubação, PIOR o prognóstico.

**Sinais e sintomas (progressão):**
1. **TRISMO** (trismo mandibular — "mandíbula travada", dificuldade de abrir a boca). ⚠️ Sinal mais precoce e mais característico!
2. **RISO SARDÔNICO** (contratura dos músculos faciais — testa franzida + olhos fechados + boca esticada em "sorriso" forçado).
3. **RIGIDEZ DE NUCA** (pescoço rígido) e **OPISTÓTONO** (espasmo dos músculos das costas — o corpo se arqueia para trás como um arco, apoiado apenas na cabeça e calcanhares).
4. **ESPASMOS GENERALIZADOS** — dolorosíssimos, desencadeados por estímulos mínimos (som, luz, toque, corrente de ar). O paciente está CONSCIENTE durante os espasmos (o tétano NÃO afeta o nível de consciência — a pessoa sofre tudo acordada e lúcida, o que é parte do horror da doença).
5. Insuficiência respiratória (espasmo dos músculos respiratórios + rigidez torácica).
6. Morte.

> ⚠️ MORTALIDADE: 30–50% com UTI; >80% sem UTI. O tétano é uma das doenças mais terríveis e evitáveis que existem.

**Manejo:**
- ⚠️ Medidas de suporte: ambiente ESCURO, SILENCIOSO, sem estímulos. Minimizar manipulação.
- ⚠️ Limpeza e desbridamento do ferimento (a bactéria é anaeróbica — expor o ferimento ao OXIGÊNIO, removendo tecido necrosado, ajuda a impedir a proliferação).
- ⚠️ NÃO há tratamento natural. Antibiótico (metronidazol) pode reduzir a carga bacteriana, mas NÃO reverte a toxina já ligada aos neurônios. O soro antitetânico (SAT) ou imunoglobulina antitetânica (IGHAT) neutraliza a toxina circulante, mas NÃO a toxina já fixada.
- A recuperação, quando ocorre, leva SEMANAS e é completa (não deixa sequelas — a toxina é biodegradada e os neurônios se regeneram).

**Prevenção (a ÚNICA defesa real):**
- **VACINA ANTITETÂNICA** (toxoide tetânico). Eficácia >99%. Esquema: 3 doses na infância + reforço a cada 10 anos. Em cenário sem vacina, a profilaxia pós-ferimento com SAT/IGHAT é a alternativa.
- **Limpeza IMEDIATA e vigorosa de QUALQUER ferimento** com água e sabão. Remover corpos estranhos e tecido necrosado (desbridamento). Deixar o ferimento ABERTO (ferimentos profundos devem cicatrizar de dentro para fora — NÃO suturar ferimentos com >6 horas).
- ⚠️ Em cenário sem vacina nem soro, a ÚNICA prevenção possível é a limpeza obsessiva de ferimentos e o desbridamento precoce. Ainda assim, o risco existe.

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## 8. Raiva

**Agente:** Lyssavirus (vírus da raiva).

**Transmissão:** Mordida, arranhadura ou lambedura de mucosas por animal INFECTADO (cães e gatos são as principais fontes no ambiente urbano; morcegos hematófagos e raposas/graxains no ambiente rural/silvestre). ⚠️ O RS possui populações significativas de morcegos hematófagos em áreas rurais e registra casos de raiva bovina e equina transmitida por morcegos.

**Período de incubação:** ALTAMENTE VARIÁVEL — de 10 dias a >1 ano (média 30–90 dias). Depende da distância entre o local da mordida e o cérebro, da carga viral inoculada e da profundidade do ferimento.

**Sinais e sintomas (uma vez iniciados, a doença é 100% FATAL):**
1. **Pródromo (2–10 dias):** febre, mal-estar, dor de cabeça, formigamento ou dormência no LOCAL DA MORDIDA (isso é altamente sugestivo de raiva — parestesia no local da ferida).
2. **Fase neurológica — Raiva FURIOSA (80%):** HIDROFOBIA (medo/aversão à água — espasmo doloroso da garganta ao tentar beber, com terror intenso), AEROFOBIA (espasmo com brisa/vento no rosto), agitação psicomotora extrema, alucinações, agressividade, sialorreia (salivação excessiva — o paciente NÃO consegue deglutir a própria saliva, que escorre pela boca). O paciente está CONSCIENTE e ATERRORIZADO.
3. **Fase neurológica — Raiva PARALÍTICA (20%):** paralisia ascendente (similar à síndrome de Guillain-Barré), confundível com outras encefalites.
4. **Coma → Morte** (em 2–10 dias após o início dos sintomas neurológicos). A causa da morte é falência do sistema nervoso autônomo e arritmias cardíacas.

**Manejo:**
- ⚠️ **UMA VEZ INICIADOS OS SINTOMAS, A RAIVA É 100% FATAL.** Não há tratamento. O "Protocolo de Milwaukee" (coma induzido + antivirais) teve 1 caso de sobrevivência documentada no mundo.
- **Profilaxia pós-exposição (a ÚNICA chance):** LAVAR IMEDIATAMENTE o ferimento com ÁGUA ABUNDANTE E SABÃO por 15 minutos + aplicar antisséptico (álcool 70%, povidona-iodo). Isso reduz drasticamente a carga viral! Depois, buscar vacina antirrábica + soro/imunoglobulina (se indicado) o MAIS RÁPIDO POSSÍVEL. A profilaxia pós-exposição é eficaz QUANDO FEITA ANTES DO INÍCIO DOS SINTOMAS.
- **Vacinação pré-exposição:** para pessoas com alto risco de exposição (veterinários, espeleólogos, trabalhadores rurais em áreas com morcegos hematófagos).

> ⚠️ A conduta com o ANIMAL AGRESSOR (se possível): cão/gato devem ser observados por 10 dias (se o animal permanecer saudável nesse período, a transmissão de raiva é extremamente improvável — o vírus só é excretado na saliva nos últimos dias de vida do animal). NÃO mate o animal (dificulta o diagnóstico). Morcegos e animais silvestres: SEMPRE considerar raivosos e iniciar profilaxia.

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## 9. Protocolo de Diagnóstico Diferencial por Síndrome

### 9.1 Síndrome Febril Aguda (<7 dias)

| Febre + | Pensar em | Pistas diagnósticas |
|---|---|---|
| Cefaleia retro-orbitária + mialgia intensa + prova do laço + | **Dengue** | Exposição a mosquito, epidemiologia local |
| Poliartralgia simétrica intensa + edema de mãos/pés | **Chikungunya** | Mesmo vetor da dengue, dor articular incapacitante |
| Conjuntivite não purulenta + rash pruriginoso | **Zika** | Febre baixa/ausente |
| Mialgia em panturrilhas + sufusão conjuntival + contato com água de enchente | **Leptospirose** | História de exposição é crucial |
| Calafrios cíclicos (48/48h) + sudorese profusa | **Malária** | Visitou ou recebeu pessoas da Amazônia |
| Tosse >3 semanas + febre vespertina + sudorese noturna + emagrecimento | **Tuberculose** | Tosse CRÔNICA |
| Icterícia + hematêmese + Sinal de Faget | **Febre amarela** | Área de mata, macacos mortos |
| Cefaleia + rigidez de nuca + vômitos + fotofobia | **Meningite** | Kernig/Brudzinski positivos (ver abaixo) |

### 9.2 Síndrome Ictérica Febril (febre + olhos amarelos)

| Icterícia + | Pensar em | Pista |
|---|---|---|
| Panturrilhas dolorosas + contato com água de enchente | **Leptospirose** | Icterícia rubínica, hemorragia pulmonar |
| Febre alta + hematêmese + Sinal de Faget | **Febre amarela** | Área endêmica, não vacinado |
| Colúria (urina escura) + acolia fecal (fezes claras) + fígado doloroso | **Hepatite A** | Pródromo de 1 semana, água/alimento contaminado |
| Calafrios cíclicos + esplenomegalia | **Malária** | Padrão cíclico da febre |

### 9.3 Síndrome Diarreica Aguda

| Diarreia + | Pensar em | Pista |
|---|---|---|
| Aquosa, profusa, "água de arroz", vômitos, desidratação RÁPIDA | **Cólera** | Desidratação fulminante (litros/hora) |
| Sangue + muco (disenteria) + tenesmo | **Amebíase** ou **Disenteria bacteriana** (Shigella) | Se >10 evacuações/dia com pouco volume: Shigella. Se fezes com sangue/muco e volume moderado: ameba. |
| Esteatorreia (fezes gordurosas, brilhantes, que boiam) + flatulência fétida | **Giardíase** | Fezes que boiam = giardíase clássica |
| Diarreia aquosa + vômitos + febre baixa + duração 2–5 dias | **Viral** (rotavírus, norovírus) | Sazonal (inverno), autolimitada |
| Diarreia aquosa + NÃO melhora com antibiótico + imunossupressão | **Criptosporidiose** | Imunossuprimidos |

### 9.4 Sinais Meníngeos (suspeita de meningite)

**Sinais de irritação meníngea:**
- **Rigidez de nuca:** deitar a vítima de costas. Tentar flexionar PASSIVAMENTE o pescoço (encostar o queixo no peito). Se houver resistência e DOR, o sinal é positivo.
- **Sinal de Kernig:** vítima deitada de costas. Flexione a perna em 90° no quadril e joelho. Tente ESTENDER o joelho. Se houver DOR e resistência, o sinal é positivo.
- **Sinal de Brudzinski:** vítima deitada de costas. Flexione PASSIVAMENTE o pescoço (encostar o queixo no peito). Se os JOELHOS flexionarem involuntariamente, o sinal é positivo.

**Meningite bacteriana (gravidade máxima — ⚠️ mata em horas):**
- ⚠️ Febre + cefaleia intensa + rigidez de nuca + vômitos em jato + fotofobia + confusão.
- ⚠️ Pode ter PETÉQUIAS (pontinhos vermelhos que não desaparecem à pressão — purpura) no tronco e membros (meningite meningocócica).
- ⚠️ REQUER antibiótico endovenoso IMEDIATO. Mortalidade sem tratamento: >90%.

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## 10. Tabela de Período de Incubação

| Doença | Incubação | Janela para ação preventiva |
|---|---|---|
| Cólera | 2h–5 dias (média 12–48h) | Higiene oral imediata |
| Dengue | 4–10 dias | — |
| Leptospirose | 5–14 dias | Profilaxia com doxiciclina após exposição |
| Malária | 7–30 dias | — |
| Hepatite A | 15–50 dias (média 28) | Vacina pós-exposição funciona (até 2 sem) |
| Tétano | 3–21 dias (média 7–8) | Limpeza IMEDIATA do ferimento + profilaxia |
| Raiva | 10 dias a >1 ano (média 30–90) | Lavar ferida IMEDIATAMENTE + profilaxia |
| Sífilis (cancro) | 10–90 dias (média 21) | — |
| Tuberculose | 4–12 sem (infecção); anos (doença) | — |
| Escabiose (sarna) | 2–6 sem (1ª infecção); 1–4 dias (reinfecção) | Tratar contatos simultaneamente |

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## Fontes para Aprofundar

- **Ministério da Saúde do Brasil — Guia de Vigilância em Saúde** (PDF atualizado periodicamente). Referência definitiva para todas as doenças de notificação compulsória.
- **OPAS/OMS — Control de las Enfermedades Transmisibles** ("El Control") — Manual compacto de referência.
- **Hesperian Health Guides — Where There Is No Doctor** (Werner, D.) — Capítulos sobre doenças infecciosas, dengue, parasitoses.
- **FUNASA — Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos**.
- **Davidson's Principles and Practice of Medicine** — Guias de diagnóstico diferencial por síndrome.
- **Kiwix/Wikimed** — Artigos sobre cada doença (para consulta offline).

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### Em outras categorias
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- [[07_clima]] — Impacto do clima na sazonalidade de doenças (dengue no verão, leptospirose em enchentes)

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- [[Medicina de desastres — Manejo de doenças em abrigos coletivos]]
- [[Guia de imunização de emergência — Vacinas essenciais e calendário em cenários de colapso]]
