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titulo: "Protocolos de Emergência — RCP, Hemorragia, Choque e Parto"
categoria: saude
tags: [survival, saude, emergencia, RCP, hemorragia, choque, parto, reanimacao, protocolos]
prioridade: alta
status: rascunho
atualizado: 2026-08-03
arquivo_principal: "[[01_saude]]"
aliases: ["Protocolos de emergência", "Protocolos de emergência — RCP, hemorragia, choque, parto"]
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# Protocolos de Emergência — RCP, Hemorragia, Choque e Parto

> Este guia expande as seções 1 (ABC do Trauma), 2 (RCP), 3 (Hemorragias), 4 (Ferimentos), e 13 (Parto de Emergência) do arquivo principal [[01_saude]].

## Visão Geral

Em uma emergência médica sem acesso a socorro profissional, o tempo entre o incidente e a primeira intervenção correta é o fator que mais determina o desfecho. Este guia sistematiza protocolos de emergência passo a passo para as situações de maior risco de morte imediata: parada cardiorrespiratória (PCR), hemorragias graves, estados de choque e parto de emergência.

Cada protocolo segue a lógica da **corrente de sobrevivência**: reconhecimento precoce → intervenção imediata → estabilização → evacuação (se possível). As técnicas aqui descritas podem ser executadas por uma pessoa com treinamento básico e materiais improvisados. Nenhuma requer equipamento hospitalar, embora itens simples de um kit de primeiros socorros (luvas, gazes, bandagens, tesoura) aumentem significativamente a eficácia e segurança.

> ⚠️ **Leia antes de precisar.** Em uma emergência real, não haverá tempo para consultar este guia pela primeira vez. Treine os procedimentos em situações simuladas. A memória muscular e o treinamento prévio são o que farão a diferença quando o pânico e o estresse tomarem conta.

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## 1. Avaliação Primária — ABCDE Detalhado

A avaliação primária é uma verificação sistemática de 30–60 segundos que identifica e trata ameaças IMEDIATAS à vida, na ordem de prioridade. Cada etapa deve ser resolvida antes de passar à seguinte.

### A — Vias Aéreas com Proteção Cervical

**Objetivo:** garantir que o ar chegue aos pulmões.

**Procedimento:**
1. Aproxime-se da vítima. Pergunte em voz alta: "Você está bem? O que aconteceu?" Se a vítima RESPONDER (fala, geme, chora), a via aérea está PÉRVIA. Se não responder, prossiga.
2. **Em trauma** (queda, acidente, agressão): PRESUMA lesão de coluna cervical. Use a manobra de **tração da mandíbula (jaw thrust)** — joelhos atrás da cabeça da vítima, polegares nas maçãs do rosto, dedos indicador e médio atrás do ângulo da mandíbula, empurre a mandíbula para FRENTE e para CIMA, SEM mover o pescoço.
3. **Sem trauma:** use a manobra de **inclinação da cabeça e elevação do queixo (head tilt–chin lift)** — uma mão na testa inclinando a cabeça para trás, dois dedos da outra mão sob o queixo elevando-o.
4. Inspecione a boca: remova dentaduras soltas, vômito, sangue, dentes quebrados, lama, corpos estranhos. Use os dedos em GANCHO (dedo indicador curvado) para varrer o interior da boca.
5. Se houver LÍQUIDO (vômito, sangue, água): vire a cabeça da vítima para o lado (se não houver suspeita de lesão cervical) para drenar.
6. Ao final, a vítima deve ter a boca aberta, cabeça na posição adequada, sem obstruções visíveis.

**Sinais de obstrução de via aérea:**
- Respiração ruidosa (ronco = língua caída; gorgolejo = líquido; estridor agudo = corpo estranho na traqueia)
- Esforço respiratório visível sem entrada de ar (movimento torácico paradoxal)
- Cianose (coloração azulada dos lábios e leito ungueal — sinal TARDIO)

### B — Respiração

**Objetivo:** confirmar se a vítima está respirando e se a respiração é adequada.

**Procedimento (VOS — Ver, Ouvir, Sentir):**
1. **VER:** o tórax e abdômen se movem? A expansão é SIMÉTRICA (ambos os lados sobem igualmente)?
2. **OUVIR:** sons respiratórios — aproximar o ouvido da boca da vítima. Há som de ar entrando e saindo?
3. **SENTIR:** o fluxo de ar na sua bochecha — coloque o rosto próximo à boca/nariz da vítima.
4. Avalie por NO MÁXIMO 10 segundos. Se não detectar respiração em 10 segundos, presuma que a vítima NÃO respira.

**Frequência respiratória normal:**
| Faixa etária | Respirações/minuto |
|---|---|
| Adulto | 12–20 |
| Criança (6–12 anos) | 18–30 |
| Criança (1–5 anos) | 20–40 |
| Bebê (<1 ano) | 30–60 |

**Se NÃO respira ou respira anormalmente (gasping):**
- Inicie 2 ventilações de resgate.
- Adulto: vede o nariz, faça selo boca-a-boca, sopre por 1 segundo até ver o tórax subir. Aguarde a expiração passiva (2–3 seg). Repita.
- Se o ar NÃO entra (tórax não sobe): reposicione a via aérea. Se ainda não entra após reposicionar → suspeite de **obstrução por corpo estranho** → execute a manobra de Heimlich (ver seção 8).
- Se o ar entra, mas a ventilação é difícil: suspeite de broncoespasmo, asma, edema pulmonar, ou pneumotórax.

**Sinais de respiração inadequada (mesmo se a vítima estiver respirando):**
- Frequência <10 ou >30/min em adulto (<20 ou >60 em bebê)
- Respiração superficial (tórax quase não se move)
- Sons anormais: sibilos (chiado — broncoespasmo), crepitações (líquido nos alvéolos — edema pulmonar), silêncio em um lado do tórax (pneumotórax ou hemotórax)
- Cianose central (lábios, língua e leito ungueal azulados)
- Batimento de asa nasal e uso de musculatura acessória (pescoço, entre as costelas) — sinais de esforço respiratório

### C — Circulação

**Objetivo:** avaliar se o coração está bombeando sangue e se há hemorragia externa grave.

**Procedimento:**
1. **Pulso carotídeo** (pescoço): coloque dois dedos (indicador e médio) na proeminência laríngea (pomo de Adão). Deslize os dedos lateralmente para o sulco entre a traqueia e o músculo esternocleidomastóideo. Palpe por 5–10 segundos.
   - **Adulto:** pulso carotídeo.
   - **Criança (1–10 anos):** pulso carotídeo também.
   - **Bebê (<1 ano):** pulso braquial — face interna do braço, entre o cotovelo e a axila. Ou pulso femoral (virilha).
2. Se HÁ pulso: avalie a QUALIDADE.
   - Pulso forte, regular, 60–100 bpm (adulto) → circulação provavelmente adequada.
   - Pulso rápido (>100 bpm) e fino/fraco → choque compensado ou descompensação iminente.
   - Pulso lento (<50 bpm) e fraco → choque cardiogênico, hipotermia grave, overdose.
3. Se NÃO há pulso → **RCP IMEDIATA** (ver seção 2).
4. **Hemorragia externa:** inspecione visualmente o corpo da vítima. Procure poças de sangue, roupas encharcadas. Hemorragia externa GRAVE (sangue jorrando ou fluindo rapidamente) deve ser controlada ANTES de prosseguir para D e E. Ver seção 3.

**Pulso normal por faixa etária:**
| Faixa etária | Frequência cardíaca normal |
|---|---|
| Adulto | 60–100 bpm |
| Criança (6–12 anos) | 70–110 bpm |
| Criança (1–5 anos) | 80–120 bpm |
| Bebê (<1 ano) | 100–160 bpm |

### D — Neurológico (Disability)

**Objetivo:** avaliação neurológica rápida.

**Procedimento:**
1. **Nível de consciência — Escala AVDI:**
   - **A**lerta: olhos abertos, responde a perguntas, orientado.
   - Responde a estímulo **V**erbal: abre os olhos ou emite som quando chamado pelo nome ou com comando verbal ("abra os olhos", "aperte minha mão").
   - Responde a estímulo **D**oloroso: só reage a estímulo doloroso (aperto no trapézio, fricção no esterno, compressão do leito ungueal). Abre os olhos, geme ou tenta se afastar.
   - **I**nconsciente: não responde a nenhum estímulo.
   - ⚠️ Uma queda de 1 nível (ex.: de A para V) em minutos é sinal de emergência neurológica — provável hemorragia intracraniana.
2. **Pupilas:** com uma lanterna (ou abrindo e fechando rapidamente a luz ambiente), avalie:
   - **Tamanho e simetria:** pupilas desiguais (anisocoria) >1 mm de diferença podem indicar lesão cerebral (herniação), AVC ou trauma ocular direto.
   - **Reação à luz:** a pupila contrai com luz? Se não reage (fixa), é sinal neurológico grave.
   - **Mióticas** (puntiformes, <2 mm): overdose de opioides, AVC de ponte.
   - **Midriáticas** (dilatadas, >5 mm, fixas): hipóxia cerebral grave, overdose de estimulantes, parada cardíaca.
3. **Glicemia:** se tiver um glicosímetro disponível, avalie. Hipoglicemia (<60 mg/dL) pode simular qualquer alteração neurológica.

### E — Exposição com Controle de Temperatura

**Objetivo:** encontrar lesões ocultas sem causar hipotermia.

**Procedimento:**
1. Remova ou corte as roupas conforme necessário para expor áreas suspeitas de lesão.
2. Examine sistematicamente: cabeça, pescoço, tórax (frente e costas), abdômen, pelve, membros (todos os 4), costas (role a vítima em bloco).
3. **IMPORTANTE:** cubra a vítima imediatamente após examinar cada área. A hipotermia induzida pelo exame em ambiente frio piora a coagulação e aumenta a mortalidade.
4. Em ambiente externo no inverno gaúcho (0–5°C): minimize a exposição ao essencial. A tríade letal do trauma é: hipotermia + acidose + coagulopatia — uma alimenta a outra em um ciclo mortal.

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## 2. RCP — Ressuscitação Cardiopulmonar

### 2.1 RCP em Adulto — Protocolo Completo

**Reconhecimento:**
- Vítima INCONSCIENTE (não responde a chamado ou estímulo doloroso)
- NÃO respira ou tem gasping (respiração agônica — boquejos irregulares, lentos, ruidosos. Isso NÃO é respiração efetiva.)
- SEM pulso central (carotídeo)

**Gasping (respiração agônica):** ocorre em 40–60% das PCRs presenciadas. A vítima parece "boquejar", emitir roncos ou suspiros ocasionais (1–3 por minuto). Presenciadores leigos frequentemente confundem gasping com respiração normal e NÃO iniciam RCP. **Gasping = NÃO respira = Iniciar RCP.**

**Procedimento passo a passo:**
1. Posicione a vítima em superfície RÍGIDA e plana (chão, tábua, mesa dura). RCP em superfície macia (cama, colchão) é ineficaz — as compressões afundam o colchão, não o tórax.
2. Ajoelhe-se ao lado. Exponha o tórax.
3. Coloque a BASE de uma mão (região tenar/hipotênar — a "almofada" da palma, não os dedos) no CENTRO do tórax — metade inferior do esterno. A outra mão sobre a primeira. Dedos entrelaçados ou estendidos. Mantenha os dedos AFASTADOS das costelas (compressão sobre costelas = fratura, embora fraturas de costelas sejam comuns e aceitáveis em RCP — melhor costela fraturada que morto).
4. **Postura corporal:** braços ESTICADOS, ombros DIRETAMENTE sobre as mãos (linha reta vertical ombro-cotovelo-punho-espero). Use o peso do seu TRONCO, não a força dos braços (cansa menos).
5. **Profundidade:** 5–6 cm (2–2,4 polegadas). Visualize: o tórax deve afundar cerca de 1/3 da profundidade anteroposterior.
6. **Frequência:** 100–120 compressões/minuto.
   - **Ritmo de referência:** a música *"Stayin' Alive"* (Bee Gees) tem 104 bpm. *"Another One Bites the Dust"* (Queen) tem 110 bpm. Qualquer música com ~100–120 bpm serve como metrônomo mental.
7. **Retorno completo do tórax** entre compressões — deixe o tórax VOLTAR totalmente à posição inicial sem remover as mãos. Se você não permite o retorno completo, o coração não se enche de sangue entre as compressões e o débito cardíaco cai pela metade.
8. **Minimize interrupções:** cada pausa nas compressões reduz a pressão de perfusão coronariana a zero. Retomar leva várias compressões. Meta: >80% do tempo total de RCP com compressões ativas (fração de compressão torácica).
9. **Ventilações (se treinado e disposto):** 30 compressões + 2 ventilações.
   - Abra via aérea (head tilt / jaw thrust).
   - Vede o nariz da vítima com polegar e indicador.
   - Faça selo boca-a-boca (sua boca cobre a da vítima).
   - Sopre por 1 segundo — apenas o suficiente para ver o tórax SUBIR. NÃO hiperventile (sopros vigorosos insuflam o estômago → vômito e aspiração).
   - Espere a expiração passiva (2–3 seg). Repita.
   - Cada ciclo de 2 ventilações não deve tomar mais de 5 segundos.
10. **Se NÃO quiser ou NÃO puder ventilar:** faça compressões CONTÍNUAS, sem pausa para ventilações. É muito melhor que não fazer nada. Após ~12 minutos de PCR sem ventilações, a oxigenação residual do sangue se esgota — mas compressões contínuas ainda oferecem melhor desfecho que RCP nenhuma.

**Reavaliação:**
- A cada 2 minutos (≈5 ciclos de 30:2), reavalie pulso e respiração por NÃO MAIS que 10 segundos.
- Alterne o compressor (quem faz as compressões) a cada 2 minutos se houver mais de um socorrista — a qualidade das compressões cai drasticamente após 2 minutos devido à fadiga.
- Mantenha RCP ATÉ: a vítima reagir (abrir olhos, tossir, se mexer), você estiver fisicamente exausto e incapaz de continuar, o ambiente se tornar perigoso para você, ou a vítima apresentar sinais inequívocos de morte (rigor mortis, decapitação, decomposição).

### 2.2 RCP em Criança (1 ano até puberdade)

**Diferenças do adulto:**
1. **Verificação de pulso:** carotídeo (pescoço) ou femoral (virilha).
2. **Mãos:** use 1 ou 2 mãos, dependendo do tamanho da criança. A profundidade de compressão deve ser ~5 cm (≈1/3 do diâmetro anteroposterior).
3. **Relação ventilação/compressão:**
   - 1 socorrista: 30:2 (igual adulto)
   - 2 socorristas: 15:2
4. **Ventilações:** a boca do socorrista cobre a boca e o nariz da criança (se a boca do socorrista for grande o suficiente) ou apenas a boca (vedando o nariz com dedos). Sopros MAIS SUAVES que no adulto — volume suficiente para ver o tórax subir. Hiperventilação causa distensão gástrica e regurgitação.
5. **Causa mais comum de PCR em criança é RESPIRATÓRIA** (asfixia, afogamento, sufocamento) — as ventilações são MAIS importantes que em adultos (onde a causa mais comum é cardíaca).

### 2.3 RCP em Bebê (<1 ano, exceto recém-nascido)

**Diferenças:**
1. **Verificação de pulso:** pulso BRAQUIAL (face interna do braço) ou FEMORAL. NÃO palpe o pescoço de bebês (difícil e perigoso).
2. **Compressões:** use 2 DEDOS (indicador e médio) no centro do peito, logo abaixo da linha intermamilar. Alternativa: técnica dos dois polegares com as mãos circundando o tórax (melhor para 2 socorristas).
3. **Profundidade:** ~4 cm (≈1/3 do diâmetro anteroposterior).
4. **Relação:** 30:2 (1 socorrista), 15:2 (2 socorristas).
5. **Ventilações:** a boca do socorrista cobre a boca E o nariz do bebê. Sopros MUITO SUAVES — apenas o ar das BOCHECHAS (não dos pulmões cheios). Volume: suficiente para ver o tórax subir levemente (15–25 mL). A hiperventilação em bebês causa pneumotórax com facilidade.
6. **RCP neonatal** (bebê ao nascer): diferente do protocolo acima. Ver seção sobre parto.

### 2.4 RCP em Afogamento

No afogamento, a PCR é SEMPRE precedida por HIPÓXIA. O protocolo difere do protocolo padrão:

1. **Segurança primeiro:** remova a vítima da água. Se estiver em água corrente, use uma vara, corda ou objeto flutuante para alcançá-la SEM entrar na água. Só entre se a água estiver calma e você for bom nadador.
2. **Inicie com 5 ventilações de resgate (não 2).** A via aérea tem água e espuma — as primeiras ventilações podem ser difíceis. Sopre com mais força que o normal para vencer a resistência.
3. **Após as 5 ventilações:** verifique pulso e respiração. Se ausentes, inicie RCP 30:2 (adulto) ou 15:2 (criança).
4. **NÃO tente drenar água dos pulmões** (manobra de compressão abdominal ou posicionamento de cabeça para baixo). Isso NÃO funciona (a água está nos alvéolos, não no estômago) e atrasa as ventilações.
5. **Mantenha a vítima aquecida** (hipotermia é comum em afogamento — a água conduz calor 25× mais rápido que o ar).
6. **TODA vítima de afogamento** que foi reanimada precisa de observação por PELO MENOS 24 horas — pode desenvolver síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) horas após o resgate, mesmo que inicialmente pareça bem.

**Afogamento em água fria (inverno gaúcho — água <10°C):**
- A hipotermia associada pode ser PROTETORA para o cérebro. Há casos documentados de sobrevivência neurológica intacta após 30–60 minutos de submersão em água gelada (principalmente crianças).
- Isso NÃO é motivo para desistir precocemente — prolongue a RCP.
- O reaquecimento deve ser feito ao mesmo tempo que a RCP (remover roupas molhadas, envolver em cobertores, contato pele a pele).

### 2.5 RCP em Eletrocussão

1. **SEGURANÇA ABSOLUTA primeiro:** NÃO toque na vítima até ter certeza de que a fonte de energia está DESLIGADA. Desligue disjuntor/chave geral. Se não puder desligar, use um objeto NÃO CONDUTOR (vassoura de madeira seca, cano de PVC, corda seca) para separar a vítima do contato.
2. Vítimas de eletrocussão podem sofrer PCR por FIBRILAÇÃO VENTRICULAR (baixa voltagem) ou ASSISTOLIA (alta voltagem, como raios). Também podem ter queimaduras graves internas com pele externa normal e trauma associado (queda).
3. RCP padrão. A chance de sucesso é maior que em outras PCRs se a RCP for iniciada IMEDIATAMENTE (o coração da vítima de eletrocussão frequentemente é saudável — a parada é elétrica, não por doença cardíaca).
4. **Vítima de raio:** a PCR por raio tem uma particularidade — frequentemente o coração retorna a bater espontaneamente (automaticidade cardíaca), mas o centro respiratório cerebral pode continuar paralisado por mais tempo. Se o coração voltar a bater mas a vítima não respirar, a PCR retornará por hipóxia. Continue as ventilações de resgate até a respiração espontânea retornar.

### 2.6 Quando NÃO iniciar RCP

- **Sinais inequívocos de morte:**
  - Decapitação
  - Decomposição visível (putrefação, inchaço, mau cheiro de decomposição)
  - Rigor mortis (rigidez cadavérica — começa 2–6 horas após a morte, primeiro nos pequenos músculos da face e mandíbula, depois progride para todo o corpo)
  - Livores de decúbito (manchas arroxeadas nas partes mais baixas do corpo — sangue acumulado por gravidade)
  - Esmagamento craniano com perda de tecido cerebral
  - Carbonização completa
- **Ordem de não reanimar** (se houver documento juridicamente válido no contexto local)
- **Risco para o socorrista** (cena perigosa: incêndio, desabamento iminente, produto químico tóxico, eletricidade viva)

### 2.7 Complicações da RCP

| Complicação | Frequência | Significado | Manejo |
|---|---|---|---|
| Fratura de costelas | Muito comum (30–80%) | NORMAL em RCP de qualidade (5–6 cm de profundidade). Não é erro — é consequência inevitável da compressão profunda necessária. | Continue a RCP. Costela quebrada não mata — PCR mata. |
| Fratura de esterno | Comum | Menos comum que costelas, mas também aceitável. | Continue. |
| Distensão gástrica (ar no estômago) | Comum | Ventilação muito vigorosa ou via aérea mal posicionada (ar vai para estômago, não pulmão). | Reduza a força do sopro. Se o abdômen estiver muito distendido, pressione suavemente o epigástrio para expelir o ar (após virar a cabeça da vítima para o lado — cuidado: risco de vômito e aspiração). |
| Vômito/regurgitação | Comum (30–50%) | Ar no estômago + compressões abdominais. | Vire a cabeça da vítima para o lado. Limpe a boca com os dedos. Continue RCP. |
| Lesão hepática ou esplênica | Rara | Geralmente por compressões muito baixas (sobre o abdômen, não sobre o esterno). | Continue RCP. Corrigir posição das mãos. |

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## 3. Controle Avançado de Hemorragias

### 3.1 Classificação da Hemorragia

| Classe | Perda de sangue (adulto 70 kg) | Sinais | Frequência cardíaca | Pressão arterial |
|---|---|---|---|---|
| I | <750 mL (<15%) | Sede, ansiedade leve. PA normal. | <100 bpm | Normal |
| II | 750–1500 mL (15–30%) | Pele pálida e fria, ansiedade, taquicardia. | 100–120 bpm | Normal ou levemente baixa |
| III | 1500–2000 mL (30–40%) | Pele fria e pegajosa, confusão, taquipneia. | 120–140 bpm, pulso fino | Baixa (sistólica <90 mmHg) |
| IV | >2000 mL (>40%) | Letargia/coma, pele moteada, fria. Colapso cardiovascular iminente. | >140 bpm ou bradicardia terminal | Muito baixa ou indetectável |

> ⚠️ Adultos jovens e saudáveis podem manter pressão arterial normal até perderem 30% do volume sanguíneo. TAQUICARDIA é o sinal mais precoce e confiável de choque hipovolêmico. Não espere a pressão cair para agir.

### 3.2 Protocolo de Controle de Hemorragia Externa

**Etapa 1: Pressão direta**
- Aplique compressão direta no ferimento com pano limpo, gaze ou a palma da mão (com luva). Pressione FIRMEMENTE e CONTINUAMENTE.
- Mantenha a pressão por 10–15 minutos SEM soltar para verificar (cada vez que solta, desfaz o coágulo inicial → sangramento recomeça → perda de sangue adicional).
- Se o pano encharcar de sangue, NÃO o remova — adicione OUTRO pano por cima e continue pressionando. Remover o pano inicial remove o coágulo que está se formando.

**Etapa 2: Elevação (adjuvante, nunca substitui a pressão direta)**
- Eleve o membro acima do nível do coração (reduz pressão hidrostática).
- NÃO eleve se houver fratura (imobilize primeiro).

**Etapa 3: Pontos de pressão arterial**
- Se a pressão direta sobre o ferimento não controlar o sangramento, comprima a ARTÉRIA PRINCIPAL do membro contra o osso subjacente:
  - **Braço:** artéria braquial — face interna do braço, no sulco entre o bíceps e o tríceps, comprimindo contra o úmero.
  - **Perna:** artéria femoral — na virilha, logo abaixo do ligamento inguinal (a "dobra" entre a perna e o abdômen), comprimindo contra o osso púbico. Requer MUITA força.
  - **Axila/virilha (hemorragia alta):** compressão direta + preenchimento da cavidade com gaze/panos (wound packing — ver seção 3.4).

**Etapa 4: Torniquete (último recurso em membros)**
- Aplicar APENAS se: pressão direta falhou, ou múltiplas vítimas impedem pressão direta contínua, ou ambiente tático (necessidade de mover a vítima, continuar lutando, cena perigosa).
- Aplicar a 5–8 cm ACIMA do ferimento (entre o ferimento e o coração). NUNCA sobre articulação (joelho, cotovelo).
- Material LARGO: 5–8 cm de largura. Cinto, bandagem triangular, tira de pano resistente. NUNCA fio, corda fina, arame.
- Anote o HORÁRIO na testa da vítima ou em fita adesiva no torniquete. Escreva com caneta, estilete, ou sangue.
- NÃO afrouxe. NÃO cubra (deve ficar visível para o próximo socorrista saber que está lá).
- Segundo torniquete: se o primeiro não controlar, aplique um segundo 2–3 cm ACIMA do primeiro (não removendo o primeiro).

**Tempo de torniquete e prognóstico do membro:**
| Tempo | Prognóstico |
|---|---|
| <2 horas | Recuperação completa quase certa |
| 2–4 horas | Possível lesão nervosa e muscular reversível |
| 4–6 horas | Lesão nervosa/muscular permanente provável |
| >6 horas | Amputação quase inevitável |

> ⚠️ Mesmo após 6 horas, o torniquete SALVOU A VIDA. Perder um membro é melhor que morrer exsanguinado. A decisão de aplicar torniquete nunca deve ser adiada por medo de perder o membro.

### 3.3 Torniquete Improvisado — Montagem Passo a Passo

```
MATERIAIS:
[Pano largo]  [Bastão rígido]  [Segunda tira de pano]

MONTAGEM:

1. Envolver o pano ao redor do membro

       ┌─────────┐
       │  Pano   │ ← 5-8 cm de largura
       └────┬────┘
            │
   ════════╪════════  ← membro
            │
       ┌────┴────┐
       │   Nó    │ ← nó simples (meia-volta)
       └────┬────┘
            │
2. Colocar o bastão sobre o nó

         ══╪══  ← bastão (caneta, graveto, colher de pau)
           │
3. Fazer SEGUNDO nó sobre o bastão

       ┌───────┐
       │ Bastão│
       └───┬───┘
           │
4. Girar bastão até sangramento PARAR

      →→→ [BASTÃO] ←←←
           │
5. Travar bastão (amarrar ao membro com segunda tira)
```

### 3.4 Wound Packing — Empacotamento de Ferimento em Junctional Areas

**Para quê:** ferimentos profundos em áreas onde torniquete não pode ser aplicado: axilas, virilhas e pescoço (junctional areas).

**Procedimento:**
1. Exponha completamente o ferimento (corte a roupa, não perca tempo desabotoando).
2. Insira gaze ou pano limpo DIRETAMENTE DENTRO do ferimento, camada por camada, EMPURRANDO com os dedos para o FUNDO. O material deve preencher TODO o espaço da cavidade do ferimento.
3. Continue empacotando até o material ficar compacto e não caber mais nada, ultrapassando a superfície da pele.
4. Comprima firmemente sobre o ferimento empacotado por 3–5 minutos contínuos.
5. Aplique uma bandagem compressiva sobre o local.

> ⚠️ Wound packing DÓI INTENSAMENTE (você está literalmente enfiando pano em uma ferida aberta até o osso). Avise a vítima. É melhor que morrer.

### 3.5 Agentes Hemostáticos Improvisados

| Agente | Como usar | Eficácia |
|---|---|---|
| **Pimenta-caiena / pimenta vermelha em pó** | Aplicar diretamente no ferimento + pressão. A capsaicina causa vasoconstrição local e estimula coagulação. | ⚠️ Moderada. Arde intensamente. |
| **Terra limpa / argila** | Pó fino aplicado no ferimento com pressão. Partículas fornecem superfície para agregação plaquetária. | ⚠️ Moderada. Risco de tétano e infecção se terra contaminada. Use argila estéril ao sol por várias horas. |
| **Teia de aranha** | Fios de teia aplicados sobre ferimento sangrante. Fibras fornecem matriz para coagulação. | Tradicional (muitas culturas). ⚠️ VERIFICAR — risco de contaminação bacteriana. |
| **Pó de café (fino, seco)** | Aplicar diretamente + pressão. | Tradicional. ⚠️ Risco de infecção. Use apenas café puro e seco. |
| **Celulose / algodão queimado (cinzas finas)** | Aplicar pó fino + pressão. | Tradicional. ⚠️ Risco de infecção. |

> ⚠️ Todos esses improvisos têm risco de infecção e tétano significativamente maior que gaze limpa. Use-os APENAS se gaze/pano limpo não estiver disponível e a hemorragia for ameaçadora à vida. A decisão é: infecção futura tratável vs. morte agora por hemorragia.

### 3.6 Torniquete de Junção (Junctional Tourniquet)

Para hemorragia em virilha ou axila que não responde a wound packing:

**Virilha:** enrole um pano ou atadura em forma de bola compacta (~punho fechado). Coloque a bola sobre o ferimento. Enrole uma bandagem ou pano largo ao redor da cintura, APERTANDO FORTEMENTE contra a bola.

**Axila:** similar — bola de pano sobre o ferimento + bandagem passando pelo ombro oposto e axila oposta (como uma bandagem em 8), apertando a bola contra o ferimento.

### 3.7 Cinto Pélvico (Pelvic Binder) para Fratura de Bacia

A fratura de bacia (pelve) pode causar hemorragia interna MASSIVA (>2 L no espaço retroperitoneal) e é frequentemente fatal sem estabilização.

**Sinais de fratura de bacia:**
- Mecanismo de trauma: atropelamento, queda de altura >3 m, colisão automobilística
- Dor intensa na bacia ao menor movimento
- Incapacidade de levantar a perna estendida
- Assimetria das cristas ilíacas ou pernas
- Rotação externa anormal de uma das pernas
- Hematoma ou equimose em região pélvica
- Sensação de "instabilidade" ao comprimir suavemente as cristas ilíacas (não faça deliberadamente — risco de deslocar a fratura)

**Procedimento:**
1. Enrole um lençol, cinto largo ou bandagem ao redor da PELVE — especificamente sobre os TROCANTERES MAIORES (proeminências ósseas laterais do quadril, ~10 cm abaixo da cintura). NÃO amarre na cintura (a cintura está acima da crista ilíaca, não comprime a pelve).
2. Cruze as pontas na frente e APERTE FIRMEMENTE até sentir resistência.
3. Prenda com nó, fita ou grampo.
4. Amarre os joelhos e tornozelos JUNTOS (com acolchoamento entre eles) para evitar movimento de rotação.
5. Movimentação: PRANCHA RÍGIDA. A menor flexão da pelve pode desfazer o coágulo e reativar hemorragia.

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## 4. Choque — Reconhecimento e Manejo por Tipo

### 4.1 Princípios Gerais para Qualquer Choque

1. Posicione a vítima em DECÚBITO DORSAL (deitada de costas).
2. Eleve as pernas 20–30 cm (posição de Trendelenburg modificada), a menos que haja suspeita de fratura de bacia/pelve, membros inferiores ou lesão abdominal penetrante.
3. Mantenha a vítima AQUECIDA (cobertor, jaqueta, contato corporal). A hipotermia agrava a coagulopatia.
4. NÃO ofereça líquidos ou comida por via oral (risco de aspiração se houver rebaixamento de consciência, e risco de vômito se houver necessidade de cirurgia).
5. Monitore constantemente: nível de consciência (AVDI), frequência respiratória, pulso, enchimento capilar.

### 4.2 Choque Hipovolêmico (perda de volume — sangue, plasma, líquidos)

**Causa mais comum em emergências.** Perda de sangue (hemorragia externa ou interna) ou perda de fluidos (desidratação grave, queimaduras extensas).

**Sinais e sintomas em ordem de aparecimento:**
1. Taquicardia (pulso >100 bpm) — PRIMEIRO sinal.
2. Pulso fino/fraco (difícil de palpar — a pressão de pulso diminui).
3. Pele pálida, fria e pegajosa (vasoconstrição periférica para priorizar órgãos nobres).
4. Enchimento capilar lentificado (>2 segundos — aperte a ponta do dedo/unha e solte; o leito ungueal deve voltar ao rosa em <2 segundos).
5. Sede intensa.
6. Respiração rápida e superficial (taquipneia — compensação da acidose metabólica).
7. Agitação → confusão → letargia → coma (má perfusão cerebral).

**Conduta:**
1. **Controle da hemorragia** (prioridade máxima — ver seção 3).
2. **Acesso a fluidos:** se a vítima está CONSCIENTE, não tem lesão abdominal e não é caso cirúrgico iminente, ofereça SORO ORAL em pequenos goles: 1–2 colheres de chá a cada 1–2 minutos. Observe se tolera (sem náusea/vômito).
3. **Hidratação oral em choque hemorrágico:** a reposição oral é INFINITAMENTE inferior à intravenosa, mas é a ÚNICA opção sem acesso hospitalar. A reposição oral NÃO restaura volume plasmático tão rapidamente quanto IV, mas ajuda em choque classe I e II.
4. **Aquecimento:** cubra a vítima — a hipotermia inibe a cascata de coagulação e piora o sangramento.
5. **Evacuação urgente.**

> ⚠️ Em choque hemorrágico, a reposição volêmica (com líquidos) NÃO substitui o controle da hemorragia. A tríade: **PARE o sangramento primeiro, depois reponha volume.**

### 4.3 Choque Cardiogênico (falência da bomba cardíaca)

**Causas:** infarto agudo do miocárdio, miocardite, arritmia grave, insuficiência cardíaca descompensada.

**Sinais:**
- Igual ao hipovolêmico (pele fria, taquicardia, confusão) MAIS:
- Turgência jugular (veias do pescoço dilatadas e pulsáteis — sinal de que o coração NÃO está bombeando o sangue que recebe)
- Estertores pulmonares (crepitações na ausculta — edema pulmonar congestivo)
- Pressão arterial BAIXA (sistólica <90 mmHg)

**Conduta:**
1. Sente a vítima com o tórax elevado (posição semi-Fowler — ~45°) — alivia a congestão pulmonar. Diferente do choque hipovolêmico onde se elevam as pernas.
2. NÃO administre fluidos orais ou IV em grande volume — o coração já está sobrecarregado e não consegue bombear.
3. Aspirina (AAS 300 mg mastigado) se houver suspeita de infarto e não houver contraindicação.
4. Evacuação URGENTÍSSIMA — sem intervenção médica, o choque cardiogênico tem mortalidade >80%.

### 4.4 Anafilaxia (Choque Anafilático)

Reação alérgica SISTÊMICA e potencialmente fatal que ocorre em MINUTOS após exposição ao alérgeno.

**Causas comuns em cenário de sobrevivência:** picada de abelha/marimbondo (múltiplas picadas — o veneno acumula), ingestão de planta desconhecida, frutos do mar (alergia alimentar desconhecida), formigas (tocandira).

**Sinais (podem ocorrer em qualquer combinação — bastam 2 sistemas para diagnosticar):**
1. **PELE (80–90% dos casos):** urticária (placas vermelhas elevadas e pruriginosas), angioedema (inchaço de lábios, pálpebras, língua, mãos), rubor, prurido.
2. **RESPIRATÓRIO (70%):** falta de ar, sibilos ("chiado"), tosse seca, sensação de "garganta fechando", rouquidão, estridor (som agudo ao inspirar — EDEMA DE GLOTE = ⚠️ emergência ABSOLUTA).
3. **CARDIOVASCULAR (45%):** taquicardia, hipotensão, síncope/desmaio, choque.
4. **GASTROINTESTINAL (30%):** náusea, vômito, diarreia, cólica abdominal.

**Conduta (sem medicamentos — cenário de sobrevivência):**
1. Remova o alérgeno se ainda presente (ex.: remova o ferrão da abelha raspando com cartão/lâmina, NÃO apertando com pinça — apertar injeta mais veneno).
2. Deite a vítima com pernas elevadas (se tolerar — se o desconforto respiratório for intenso, permita posição semi-sentada).
3. **Compressas FRIAS** no local da picada (vasoconstrição local reduz absorção do veneno).
4. **Monitoramento intensivo da RESPIRAÇÃO** — o edema de glote fecha a via aérea em minutos.
5. Se a vítima parar de respirar por obstrução da via aérea por edema de glote, você NÃO conseguirá ventilar. Em situação extrema (sem absolutamente NENHUMA alternativa de socorro médico e morte iminente), a **cricotireoidostomia de emergência** é a única opção (ver seção 9).
6. **Antihistamínicos naturais (eficácia NÃO COMPROVADA para anafilaxia — NUNCA substituem adrenalina):**
   - Vitamina C em altas doses (2–3 g) — a vitamina C é cofator na degradação da histamina. Efeito leve e lento.
   - Chá de urtiga (*Urtica dioica*) congelado / compressas frias — efeito antihistamínico local apenas.
   - ⚠️ **IMPORTANTE:** estes NÃO são tratamentos eficazes para anafilaxia. A anafilaxia requer ADRENALINA. Se não há adrenalina disponível, a mortalidade é alta. Priorize PREVENÇÃO (evitar alérgenos conhecidos, ter cuidado com novos alimentos).

### 4.5 Choque Séptico (infecção generalizada)

Ocorre quando uma infecção local (ferimento infectado, pneumonia, infecção urinária, abscesso) se dissemina para a corrente sanguínea, causando inflamação sistêmica, vasodilatação e colapso circulatório.

**Sinais (em evolução):**
1. **Sepse (infecção + sinais sistêmicos):** febre (>38,5°C) ou hipotermia (<36°C), taquicardia (>90 bpm), taquipneia (>20/min), confusão.
2. **Choque séptico:** sepse + hipotensão que não responde a fluidos + sinais de hipoperfusão (pele moteada, enchimento capilar >3 seg, oligúria).

**Conduta:**
1. Identifique e TRATE a fonte de infecção: drenagem de abscesso, limpeza de ferimento, remoção de tecido necrosado.
2. Hidratação oral (soro) se consciente.
3. Antibiótico natural: alho cru amassado (máximo possível — 4–6 dentes/dia), cúrcuma, mel.
4. ⚠️ Sem antibióticos farmacêuticos ou UTI, o choque séptico tem mortalidade >60%. A prevenção (limpeza METICULOSA de ferimentos) é a principal defesa.

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## 5. Obstrução de Via Aérea por Corpo Estranho (Engasgo)

### 5.1 Reconhecimento

| Gravidade | Sinais | Ação |
|---|---|---|
| **Leve (parcial)** | Consegue tossir, falar, emitir sons. Respiração ruidosa, mas ar ENTRA. | Incentive a tosse. NÃO bata nas costas. NÃO faça Heimlich — a tosse é mais eficaz que a manobra. |
| **Grave (total)** | NÃO consegue tossir, falar ou emitir som. Leva as mãos ao pescoço (sinal UNIVERSAL de engasgo). Cianose progressiva. Pânico. | Heimlich IMEDIATAMENTE. A vítima perde a consciência em 2–3 minutos. |

### 5.2 Manobra de Heimlich — Adulto e Criança >1 Ano

1. Posicione-se ATRÁS da vítima. Passe seus braços ao redor da cintura dela.
2. Feche UMA DAS MÃOS em punho. Posicione o punho com o polegar voltado para dentro, NO EPIGÁSTRIO — ~5 cm ACIMA do umbigo, BEM ABAIXO do esterno (final do osso esterno, onde as costelas se unem).
3. Cubra o punho com a OUTRA MÃO.
4. Comprima com movimentos RÁPIDOS, FORTES e CURTOS, em direção para DENTRO e para CIMA (movimento em J — primeiro afunda, depois sobe).
5. Repita a compressão em séries de 5, reavaliando após cada série.
6. Continue até: o objeto ser expelido, a vítima tossir/respirar, ou a vítima perder a consciência.

**Se a vítima PERDER A CONSCIÊNCIA:**
1. Deite a vítima no chão.
2. Inicie RCP (30 compressões + 2 ventilações). As compressões torácicas na RCP também geram pressão intratorácica que pode expelir o corpo estranho.
3. ANTES de cada ventilação, inspecione a boca — se o objeto estiver visível e acessível, remova-o com os dedos em gancho.
4. Continue o ciclo.

**Cuidados específicos:**
- **Gestantes e obesos:** a manobra de Heimlich abdominal é perigosa (risco de lesão uterina/fetal). Use a manobra de Heimlich TORÁCICA — as mãos se posicionam no CENTRO DO ESTERNO (igual compressão de RCP), comprimindo para dentro. A eficácia é ligeiramente menor mas MUITO mais segura.
- **Criança >1 ano:** ajoelhe-se atrás para ficar na altura da criança. A intensidade da compressão deve ser PROPORCIONAL ao tamanho da criança (força suficiente, mas não violenta).
- **NUNCA faça Heimlich em alguém que consegue tossir.** A tosse gera pressões intratorácicas maiores que a manobra.

### 5.3 Bebê <1 Ano

**NÃO FAÇA HEIMLICH** (risco de lesão de órgãos internos).

1. Sente-se e apoie o bebê de bruços sobre seu antebraço, com a cabeça MAIS BAIXA que o tronco. Segure a mandíbula do bebê com sua mão.
2. Aplique 5 GOLPES SECOS com a base da mão (região tenar) nas COSTAS, entre as escápulas. Força moderada — suficiente para gerar vibração que desaloja o objeto.
3. Vire o bebê de costas (barriga para cima), mantendo a cabeça mais baixa que o tronco.
4. Aplique 5 COMPRESSÕES TORÁCICAS com 2 dedos no centro do peito (igual RCP de bebê, mas mais vigorosas).
5. Alterne: 5 golpes nas costas + 5 compressões torácicas. Inspecione a boca a cada ciclo.
6. Se o bebê perder a consciência: inicie RCP pediátrica.

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## 6. Convulsões — Manejo de Emergência

### 6.1 Durante a convulsão

1. **PROTEJA A CABEÇA** — coloque algo macio (roupa dobrada, almofada) sob a cabeça. Remova objetos perigosos ao redor (móveis pontiagudos, pedras).
2. **NÃO segure a vítima** — você não vai parar a convulsão e pode machucá-la (luxação de ombro é comum em quem tenta conter uma convulsão).
3. **NÃO coloque NADA na boca** — a vítima NÃO vai "engolir a língua" (isso é um mito perigoso). Objetos na boca quebram dentes, causam sufocamento com o objeto, e ferem seus dedos se você tentar abrir a boca.
4. **Afaste curiosos.**
5. **Cronometre:** anote o horário de INÍCIO e TÉRMINO da convulsão.

### 6.2 Após a convulsão (fase pós-ictal)

1. Vire a vítima para o lado (posição lateral de segurança) — para que saliva, vômito ou sangue escorram da boca e não sejam aspirados para os pulmões.
2. A vítima ficará sonolenta, confusa e desorientada por 5–30 minutos. Isso é NORMAL (fase pós-ictal). Fique ao lado e a oriente calmamente.
3. NÃO ofereça água ou comida até que esteja completamente alerta.
4. Verifique se há lesões: mordida na língua/bochecha (comum), contusões por queda, possível fratura ou luxação (a contração muscular violenta pode fraturar vértebras em casos graves).

### 6.3 Quando é EMERGÊNCIA (Status Epilepticus)

- A convulsão dura **MAIS DE 5 MINUTOS** contínuos.
- A vítima **NÃO RECUPERA A CONSCIÊNCIA** entre duas convulsões consecutivas.
- **Convulsão em gestante** (eclâmpsia — risco de morte materna e fetal).
- **Primeira convulsão da vida** da pessoa.
- ⚠️ **STATUS EPILEPTICUS É EMERGÊNCIA COM RISCO DE MORTE.** Sem medicação (benzodiazepínicos), as opções são limitadas. Mantenha via aérea, proteja a cabeça, monitore respiração. Evacuação urgente.

### 6.4 Convulsão febril em criança (6 meses a 5 anos)

- Comum (3–5% das crianças). Geralmente benigna e autolimitada (<3 minutos).
- Conduta: proteger a criança, lateralizar após término. NÃO dê banho frio durante a convulsão (risco de aspiração).
- Após a convulsão: resfriamento (compressas MORNAS na testa e axilas — nunca frias/geladas).
- ⚠️ Se durar >5 minutos, tratar como status epilepticus.

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## 7. Traumatismo Cranioencefálico (TCE) — Protocolo de Avaliação

### 7.1 Avaliação inicial

**Sinais de GRAVIDADE após trauma na cabeça:**
- **Perda de consciência** — qualquer duração (mesmo segundos) é significativa.
- **Amnésia** — a vítima não lembra do que aconteceu (amnésia retrógrada) ou não consegue formar novas memórias (amnésia anterógrada — pergunta a mesma coisa várias vezes).
- **Vômitos** (sinal de aumento da pressão intracraniana).
- **Cefaleia INTENSA** que piora progressivamente.
- **Sonolência excessiva** ou dificuldade de acordar.
- **Alteração de comportamento** (agressividade, apatia, confusão).
- **Sinal de Battle** — hematoma atrás da orelha (sobre o osso mastoide). Indica fratura de base de crânio. Surge horas após o trauma.
- **Sinal do Guaxinim (Raccoon Eyes)** — equimose ao redor dos olhos SEM trauma direto nos olhos. Também indica fratura de base de crânio.
- **Rinorreia ou otorreia** — saída de líquido claro (LCR — líquido cefalorraquidiano) pelo nariz ou ouvido. Sinal de fratura de base de crânio com comunicação com o exterior. NÃO tampe o nariz/ouvido (risco de meningite retrógrada).
- **Pupilas anisocóricas** (desiguais) — sinal de herniação cerebral iminente. ⚠️ EMERGÊNCIA NEUROCIRÚRGICA.
- **Sinais neurológicos focais** — fraqueza ou paralisia de um lado do corpo, fala arrastada, desvio da boca.

### 7.2 Conduta

1. **Imobilização cervical** (colar cervical improvisado: jornal dobrado + atadura) até descartar lesão de coluna.
2. Cabeceira elevada a 30° (reduz pressão intracraniana) — use travesseiro, mochila dobrada.
3. **NÃO administre sedativos ou álcool** (mascaram os sinais neurológicos).
4. Monitoramento neurológico seriado: a cada 15 minutos na primeira hora, a cada 30 minutos nas 4 horas seguintes.
   - Nível de consciência (AVDI)
   - Pupilas (tamanho, simetria, reação à luz)
   - Função motora (aperto de mão bilateral, movimentar pernas)
   - Orientação (nome, local, data aproximada)
5. **Se QUALQUER sinal neurológico PIORAR:** evacuação URGENTE.
6. **Alimentação:** NADA por via oral nas primeiras 6 horas (risco de rebaixamento e vômito/aspiração).

### 7.3 Coma — Escala de Glasgow (para referência)

| Resposta | Pontuação |
|---|---|
| **Abertura ocular** | |
| Espontânea | 4 |
| Ao comando verbal | 3 |
| À dor | 2 |
| Sem resposta | 1 |
| **Resposta verbal** | |
| Orientado | 5 |
| Confuso | 4 |
| Palavras inapropriadas | 3 |
| Sons incompreensíveis | 2 |
| Sem resposta | 1 |
| **Resposta motora** | |
| Obedece comandos | 6 |
| Localiza dor | 5 |
| Retirada à dor | 4 |
| Flexão anormal (decorticação) | 3 |
| Extensão anormal (descerebração) | 2 |
| Sem resposta | 1 |

- Glasgow 13–15: TCE leve.
- Glasgow 9–12: TCE moderado.
- Glasgow 3–8: TCE grave (geralmente em coma — requer via aérea definitiva).

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## 8. Lesão de Coluna Vertebral — Protocolo de Imobilização

### 8.1 Quando SUSPEITAR de lesão de coluna

- Mecanismo de trauma significativo (queda >2× altura da vítima, acidente automobilístico, atropelamento, mergulho em água rasa)
- Trauma na cabeça ou face com alteração de consciência
- Dor ou sensibilidade no pescoço ou coluna
- Déficit neurológico (dormência, formigamento, fraqueza, paralisia)
- Deformidade visível da coluna
- Priapismo (ereção involuntária — sinal de lesão medular)
- ⚠️ **Regra de ouro:** na dúvida, IMOBILIZE. É melhor imobilizar 100 pessoas sem lesão do que perder 1 que tinha lesão e foi movida sem proteção.

### 8.2 Imobilização cervical improvisada

**Colar cervical com jornal:**
1. Dobre 3–4 folhas de jornal em uma faixa de ~10–12 cm de largura e ~50 cm de comprimento.
2. Enrole em um tubo firme, mas não rígido demais.
3. Envolva com fita adesiva ou pano.
4. Posicione ao redor do pescoço — da mandíbula ao esterno (não pode cobrir a boca nem comprimir a traqueia).
5. Prenda com fita ou atadura. A cabeça deve ficar alinhada e imóvel.

**Alternativa com toalha/roupa:**
Enrole uma toalha ou camiseta em um cilindro firme e use como colar cervical, fixando com atadura ou fita.

### 8.3 Rolamento em Bloco (para examinar costas ou colocar em prancha)

1. **Socorrista 1:** dedicado EXCLUSIVAMENTE à cabeça. Segura a cabeça FIRMEMENTE com as duas mãos (uma em cada lado, polegares sobre as orelhas, dedos ao longo da mandíbula). Mantém tração suave e alinhamento neutro.
2. **Socorristas 2 e 3:** posicionados ao longo do tronco e pernas da vítima.
3. **Socorrista 1 comanda:** "Atenção... VIRANDO... JÁ."
4. Em bloco, todos viram a vítima simultaneamente para a posição lateral, MANTENDO cabeça-pescoço-tronco-pernas ALINHADOS como uma tábua (sem torção, sem flexão).
5. Exame das costas. Posicionamento da prancha (se disponível).
6. **Socorrista 1 comanda o retorno:** "Atenção... VOLTANDO... JÁ."

### 8.4 Transporte de vítima com suspeita de lesão medular

- Superfície RÍGIDA (porta removida das dobradiças, tábua de madeira, placa de compensado, prancha de surfe, bancada de mesa).
- Amarre a vítima à prancha: testa (não o pescoço!), tórax (axilas), pelve, coxas, pernas abaixo dos joelhos.
- ⚠️ A imobilização da CABEÇA é a etapa mais importante. Se não tiver como imobilizar a cabeça, um socorrista DEDICADO deve segurar a cabeça alinhada durante TODO o transporte.

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## 9. Via Aérea Cirúrgica de Emergência — Cricotireoidostomia

> ⚠️ **ESTA SEÇÃO É DE ÚLTIMO RECURSO ABSOLUTO.** A cricotireoidostomia é indicada APENAS quando a vítima está morrendo asfixiada, você NÃO consegue ventilar pela boca de JEITO NENHUM (obstrução acima das cordas vocais: trauma facial massivo, edema de glote por anafilaxia ou queimadura, corpo estranho irremovível), e NÃO HÁ QUALQUER POSSIBILIDADE de socorro médico. A decisão de fazer este procedimento é a DECISÃO MAIS SÉRIA deste guia — você está literalmente cortando o pescoço de alguém.

**Apenas leia e memorize a anatomia. NÃO pratique sem supervisão médica.**

### 9.1 Anatomia relevante

A membrana cricotireóidea é um ligamento entre duas cartilagens da laringe:
- **Cartilagem tireóidea** (proeminente — "pomo de Adão", mais proeminente em homens)
- **Cartilagem cricóidea** (anel completo, ~2 cm abaixo da tireóidea)

A membrana entre elas é AVASCULAR (quase não sangra), está a ~1 cm abaixo da pele, e fica ABAIXO das cordas vocais. É o ponto de acesso mais seguro à traqueia em emergência.

```
Diagrama do pescoço (vista anterior):

    ╭─────────────────╮
    │   Osso hioide   │ ← não palpável com facilidade
    ╰────────┬────────╯
             │
    ╭────────┴────────╮
    │ Cartilagem      │
    │ tireóidea        │ ← "Pomo de Adão" — palpável
    │ (proeminência)   │
    ╰────────┬────────╯
             │  ← MEMBRANA CRICOTIREÓIDEA (local de incisão)
    ╭────────┴────────╮
    │ Cartilagem      │
    │ cricóidea        │ ← Anel palpável, ~2 cm abaixo da tireóidea
    ╰────────┬────────╯
             │
    ╭────────┴────────╮
    │ Traqueia         │ ← Anéis traqueais
    ╰─────────────────╯
```

### 9.2 Técnica (descrição para conhecimento — NÃO execute sem treinamento formal)

1. Hiperestenda o pescoço (se não houver lesão cervical).
2. Palpe a cartilagem tireóidea (pomo de Adão). Deslize o dedo para baixo até sentir uma DEPRESSÃO (a membrana cricotireóidea). Logo abaixo, o ANEL da cartilagem cricóidea.
3. Faça uma incisão VERTICAL de 2–3 cm na pele sobre a membrana (a incisão vertical é mais segura — evita lesar as veias jugulares anteriores que correm lateralmente).
4. Afaste o tecido subcutâneo com o dedo. Palpe novamente a membrana.
5. Faça uma incisão HORIZONTAL na membrana cricotireóidea (~1 cm).
6. Insira um tubo: caneta vazia (sem carga), tubo de caneta esferográfica, pedaço de canudo rígido, tubo de borracha, ou — em emergência extrema — um canivete com a lâmina parcialmente inserida para manter a incisão aberta. Diâmetro ideal: 5–7 mm.
7. Fixe o tubo com fita/atadura ao pescoço.
8. Ventile através do tubo.

> ⚠️ Esta seção existe para conhecimento, NÃO como instrução prática a ser seguida sem treinamento. O risco de complicações (lesão de vasos, lesão de esôfago, falsa via, estenose traqueal, infecção) é ALTÍSSIMO em mãos não treinadas.

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## 10. Parto de Emergência — Guia Detalhado

### 10.1 Preparação

**Ambiente:** limpe o local. Lençóis ou panos LIMPOS (fervidos e secos ao sol). Iluminação adequada (janela, lanterna, fogueira fora do local). Privacidade para a parturiente.

**Materiais necessários (reunir ANTES):**
- [ ] Panos/toalhas limpos (mínimo 4–5)
- [ ] Tesoura ou lâmina LIMPA (fervida 15 minutos e guardada em pano limpo)
- [ ] Fio/cadarço LIMPO para amarrar o cordão umbilical (algodão fervido)
- [ ] Cobertor limpo para receber o bebê
- [ ] Gaze ou pano macio para limpar boca e nariz do bebê
- [ ] Luvas limpas (se disponíveis)
- [ ] Água limpa morna (fervida e resfriada) — para lavar as mãos e limpeza
- [ ] Recipiente (bacia) para a placenta
- [ ] Absorvente ou panos para o pós-parto (lóquios — sangramento pós-parto normal)

### 10.2 Estágios do trabalho de parto

**Primeiro estágio (dilatação):**
- Contrações regulares, inicialmente a cada 15–20 min, depois 5–10 min, depois 3–5 min.
- Dilatação do colo do útero de 0 a 10 cm.
- Duração: 6–12 horas (primeira gestação) ou 3–6 horas (gestações posteriores).
- Sinais de trabalho de parto ATIVO (a parturiente NÃO deve mais comer — apenas pequenos goles de água ou soro oral):
  - Contrações a cada 3–4 minutos
  - Duração >50 segundos
  - Intensidade forte (a parturiente não consegue falar durante a contração)
- Sinais de ALARME no primeiro estágio:
  - Contrações >12 horas sem progressão (bebê não desce) → possível desproporção cefalopélvica → evacuar
  - Sangramento vaginal vermelho vivo (não é o "sinal de sangue" mucoide normal)
  - Febre materna (>38°C)
  - Diminuição ou ausência de movimentos fetais

**Segundo estágio (expulsivo):**
- Colo totalmente dilatado (10 cm).
- A parturiente sente vontade IRRESISTÍVEL de fazer força (puxo).
- Visualização da cabeça do bebê (coroamento).
- Duração: 30 min a 2 horas (primeira gestação) ou 15 min a 1 hora (posteriores).
- ⚠️ Se o período expulsivo durar >2 horas (>1 hora em multípara) sem progresso: evacuar.

**Terceiro estágio (deiscência da placenta):**
- A placenta se descola e é expelida 5–30 minutos após o parto.
- Sinais de descolamento: o cordão umbilical desce mais para fora, pequeno jato de sangue, o útero sobe no abdômen e fica mais firme.

### 10.3 Condução do Parto — Passo a Passo

1. **Lave** suas mãos e antebraços vigorosamente com água limpa e sabão. Se tiver álcool 70%, use após lavar.
2. **Posicione** a parturiente como ela preferir: cócoras (apoiada em alguém ou em móvel), deitada de lado (decúbito lateral esquerdo — reduz compressão da veia cava pelo útero), ou semi-sentada. A posição de CÓCORAS é fisiologicamente a melhor (a gravidade ajuda), mas é cansativa. Deixe-a trocar de posição se desejar.
3. **NÃO faça toque vaginal** (exame interno) se não tiver treinamento formal. O risco de infecção é alto e a informação obtida é limitada. Confie nos sinais externos: a parturiente saberá quando fazer força.
4. **Apoio psicológico:** mantenha calma. Fale com voz tranquila. A parturiente está sentindo DOR INTENSA e está assustada. Diga: "Você está indo bem. Respire. Seu corpo sabe o que fazer."
5. **Respiração:** durante as contrações, incentive respiração RÍTMICA: inspirar pelo nariz, expirar pela boca lentamente (soprando). Entre as contrações: respire normalmente e descanse.
6. **Evacuação:** se a parturiente sentir vontade de evacuar durante o período expulsivo, é NORMAL (a cabeça do bebê comprime o reto). Deixe-a evacuar se necessário — a limpeza é feita depois.
7. **Proteção do períneo:** quando a cabeça do bebê começar a aparecer e DISTENDER o períneo (a área entre a vagina e o ânus), coloque a palma da sua mão (com luva ou pano limpo) sobre o períneo, fazendo uma CONTRA-PRESSÃO SUAVE. Isso reduz o risco de laceração.
8. **Controle da saída da cabeça:** NÃO puxe. A cabeça deve sair LENTAMENTE, controlada pela própria mãe (inspirar e expirar como se estivesse apagando velas — "soprar" em vez de fazer força máxima, para que a cabeça saia gradualmente). A saída explosiva da cabeça é a principal causa de laceração perineal grave.
9. **Verifique o cordão umbilical:** após a saída da cabeça, passe o dedo ao redor do pescoço do bebê, sentindo se o cordão umbilical está enrolado (circular de cordão). Se estiver ENROLADO E FROUXO, passe-o suavemente sobre a cabeça do bebê. Se estiver ENROLADO E APERTADO (impedindo a saída do bebê), você precisará CLAMPEAR E CORTAR o cordão IMEDIATAMENTE nesta fase (ver passo 13), antes mesmo do corpo do bebê nascer.
10. **Rotação e saída dos ombros:** a cabeça do bebê, após sair, gira naturalmente para o lado (rotação externa). Aguarde. O ombro superior (anterior) sai primeiro, depois o inferior (posterior). NÃO puxe a cabeça para apressar a saída dos ombros — isso lesiona os nervos do plexo braquial do bebê (paralisia braquial obstétrica).
11. **Ampare o bebê:** ele está extremamente escorregadio (líquido amniótico + vérnix). Segure firme, mas não o levante (o cordão ainda está preso).
12. **Limpeza IMEDIATA da boca e nariz:** com gaze limpa ou pano, limpe boca (primeiro) e depois nariz, removendo muco e líquido amniótico. Se tiver uma pera de sucção (aspirador nasal de bebê), use-a. Esfregue as costas do bebê com uma toalha para estimular o choro (a expansão pulmonar).
13. **Corte do cordão umbilical:** ESPERE o cordão PARAR DE PULSAR (2–3 minutos). Isso transfere ~80–100 mL de sangue placentário rico em ferro e células-tronco para o bebê, reduzindo significativamente o risco de anemia infantil.
    - Amarre 2 NÓS bem apertados com fio limpo no cordão: o primeiro a ~10 cm da barriga do bebê, o segundo a ~15 cm (ou seja, ~5 cm de distância entre os nós).
    - Corte com lâmina/tijela LIMPAS no espaço ENTRE os dois nós.
    - Examine o coto: não deve sangrar. Se sangrar, reamarre mais apertado.
    - O coto umbilical vai secar, escurecer e cair sozinho em 7–14 dias. Mantenha LIMPO e SECO. NÃO cubra com nada (nem álcool, nem faixa) — apenas seque e mantenha fora da fralda/roupa molhada. Se aparecer vermelhidão, inchaço, pus ou mau cheiro ao redor do coto → infecção (onfalite) → ⚠️ grave.
14. **Secar e aquecer o bebê:** seque vigorosamente com toalha limpa (remover o líquido amniótico reduz perda de calor por evaporação). Envolva em cobertor seco. Coloque um gorro na cabeça do bebê (a cabeça é a maior superfície de perda de calor do recém-nascido).
15. **Coloque o bebê pele a pele** no peito da mãe IMEDIATAMENTE. Isso:
    - Mantém o bebê aquecido (contato pele a pele é mais eficaz que incubadora em muitos casos)
    - Inicia o vínculo e libera ocitocina na mãe (acelera a saída da placenta e reduz hemorragia pós-parto)
    - Estimula a amamentação precoce
16. **Amamentação na primeira hora:** coloque o bebê para mamar assim que ele demonstrar sinais de prontidão (movimento de sucção, procura com a boca). A sucção libera ocitocina na mãe, que CONTRAI o útero e PREVINE a hemorragia pós-parto. O colostro (primeiro leite) é riquíssimo em anticorpos.
17. **Deiscência da placenta:** a placenta sai ESPONTANEAMENTE. Massageie suavemente o fundo do útero (a "bola" no abdômen da mãe, logo abaixo do umbigo) APÓS o bebê nascer. Isso estimula a contração e o descolamento da placenta. NÃO PUXE o cordão para extrair a placenta (risco de inversão uterina — ⚠️ emergência catastrófica).
18. **Exame da placenta:** a placenta deve sair INTEIRA. Examine: ela parece completa ou faltam pedaços? Se faltar um fragmento (cotilédone), a mãe pode ter HEMORRAGIA PÓS-PARTO TARDIA (dias depois). Guarde a placenta para exame por profissional de saúde.

### 10.4 Complicações no Parto e Conduta

**Hemorragia pós-parto (HPP):**
- Sangramento >500 mL após o parto (visualmente: mais que 2 xícaras).
- Útero flácido (não contraído — "amolecido" em vez de duro como uma bola).
- **Conduta IMEDIATA:**
  1. Massageie o FUNDO do útero (barriga) FIRMEMENTE com a palma da mão até sentir o útero CONTRAIR (endurecer sob sua mão). Massagem circular.
  2. Coloque o bebê para MAMAR (sucção → libera ocitocina → contrai o útero).
  3. Estimule os MAMILOS da mãe (beliscar/enrolar) — também libera ocitocina.
  4. Esvazie a bexiga da mãe (bexiga cheia impede a contração uterina) — incentive-a a urinar. Se não conseguir, compressa morna na região suprapúbica.
  5. ⚠️ Se o sangramento NÃO REDUZIR com massagem: comprima a AORTA ABDOMINAL — com o punho fechado, comprima FIRMEMENTE o abdômen da mãe na região do umbigo, contra a coluna vertebral, para reduzir o fluxo sanguíneo para o útero. Esta é uma medida TEMPORÁRIA enquanto se prepara para evacuação.
  6. ⚠️ Ingestão de plantas hemostáticas (uso oral): chá de mil-folhas (*Achillea millefolium*), chá de casca de carvalho (*Quercus* spp. — taninos adstringentes). Eficácia não comprovada para HPP grave — ⚠️ VERIFICAR.

**Retenção de placenta:**
- Placenta não sai após 30–60 minutos do parto.
- Massagear o fundo do útero. Deixar o bebê mamar.
- ⚠️ NÃO puxe o cordão com força — risco de RUPTURA do cordão (se romper, perde-se o acesso) ou INVERSÃO UTERINA (o útero vira do avesso e sai pela vagina — ⚠️ emergência gravíssima com choque neurogênico e hemorragia).
- Se a placenta não sair após 1 hora e houver sangramento: evacuação urgente.

**Prolapso de cordão umbilical:**
- O cordão sai pela vagina ANTES do bebê (emergência — o cordão é comprimido entre o bebê e a pelve → bebê para de receber oxigênio).
- **Conduta IMEDIATA:**
  1. Posicione a mãe DE JOELHOS com o PEITO no chão (posição de Trendelenburg invertida / posição genupeitoral) — a gravidade faz o bebê "cair" para dentro do útero, aliviando a compressão do cordão.
  2. Com a mão enluvada (ou mão muito limpa), introduza 2 dedos na vagina e EMPURRE a parte do bebê que está comprimindo o cordão (geralmente a cabeça) para CIMA, tirando a pressão do cordão. MANTENHA esta posição.
  3. O cordão exposto ao ar resseca e sofre vasoespasmo. Cubra-o com gaze ou pano ÚMIDO E MORNO (água limpa morna ou soro).
  4. NÃO tente reintroduzir o cordão na vagina.
  5. Evacuação URGENTÍSSIMA — cesariana de emergência.
  6. Enquanto transporta, mantenha a mãe na posição genupeitoral e seus dedos mantendo a pressão aliviada sobre o cordão. Isso pode significar transportá-la de joelhos em uma caminhonete ou carroça.

**Apresentação pélvica (bebê sentado — pés ou nádegas primeiro):**
- Alto risco de complicações (cabeça derradeira — a cabeça, maior diâmetro, sai por último e pode ficar presa).
- ⚠️ Se possível, EVACUE ANTES do período expulsivo (se detectado a tempo).
- Se o parto pélvico for inevitável (bebê já está saindo):
  1. NÃO puxe o bebê. Deixe o corpo sair com as contrações.
  2. Após a saída do corpo até os ombros, o problema é a cabeça ficar presa. Crie um CAMINHO DE AR: insira dois dedos na vagina, ao longo da face do bebê, e empurre a parede vaginal para longe da boca/nariz do bebê, criando um espaço para o bebê respirar enquanto a cabeça ainda está dentro.
  3. NÃO tracione (puxar) a cabeça.
  4. ⚠️ Risco de lesão neurológica e óbito fetal é alto em parto pélvico domiciliar não assistido.

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## 11. Tabela de Decisão Rápida — Protocolos de Emergência

| Situação | Ação IMEDIATA | Próximo passo | Quando parar |
|---|---|---|---|
| PCR adulto | RCP 30:2 (100–120/min, 5–6 cm) | Reavaliar a cada 2 min | Vítima reagir, exaustão, ou sinais de morte |
| PCR criança | RCP 30:2 (1 ou 2 mãos, 5 cm) | Reavaliar a cada 2 min | Idem |
| PCR bebê | RCP 30:2 (2 dedos, 4 cm) | Reavaliar a cada 2 min | Idem |
| PCR afogamento | 5 ventilações PRIMEIRO + RCP | Aquecer vítima | Idem + reaquecer ativamente |
| Hemorragia externa grave | Pressão direta + elevação | Torniquete se incontrolável | Sangramento parar ou torniquete aplicado |
| Hemorragia junctional | Wound packing (empacotar ferida) | Torniquete de junção | Sangramento controlado |
| Choque hipovolêmico | Parar hemorragia + aquecer + pernas elevadas | Soro oral se consciente | Evacuar |
| Anafilaxia | Remover alérgeno + deitar + monitorar respiração | Compressas frias | Evacuação urgente (sem adrenalina, mortalidade alta) |
| Engasgo total (>1 ano) | Heimlich (punho no epigástrio, para dentro e cima) | Se desmaiar → RCP | Objeto expelido ou vítima desmaia |
| Engasgo bebê (<1 ano) | 5 golpes costas + 5 compressões torácicas | Inspecionar boca | Objeto expelido ou bebê desmaia |
| Convulsão | Proteger cabeça | Lateralizar após término | Convulsão terminar |
| Status epilepticus (>5 min) | Proteger + lateralizar | Manter via aérea | Evacuação urgente |
| TCE com perda de consciência | Imobilizar cervical + cabeceira 30° | Monitorar neurológico a cada 15 min | Evacuar se piorar |
| Parto normal | Amparar bebê. NÃO puxar. | Cortar cordão após parar de pulsar. Secar e aquecer bebê. | Placenta sair espontaneamente |
| Hemorragia pós-parto | Massagem uterina + bebê ao peito | Compressão da aorta (temporário) | Sangramento controlar |
| Prolapso de cordão | Posição genupeitoral + empurrar cabeça do bebê para cima | Manter pressão aliviada no cordão | Evacuação URGENTÍSSIMA |

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## 12. Faixas Etárias — Resumo de Parâmetros Vitais para Referência Rápida

| Faixa etária | FC normal (bpm) | FR normal (rpm) | Pressão sistólica (mmHg) |
|---|---|---|---|
| Recém-nascido | 110–160 | 30–60 | 60–90 |
| Bebê (<1 ano) | 100–160 | 30–60 | 70–100 |
| Criança (1–5 anos) | 80–120 | 20–40 | 80–110 |
| Criança (6–12 anos) | 70–110 | 18–30 | 90–120 |
| Adolescente (13–17) | 60–100 | 12–20 | 100–130 |
| Adulto | 60–100 | 12–20 | 100–140 |
| Idoso (>65) | 50–100 | 12–24 | 100–150 (varia com rigidez arterial) |

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## Fontes para Aprofundar

- **American Heart Association (AHA)** — *Guidelines for CPR and ECC* (2020 ou mais recente). Padrão internacional de RCP.
- **PHTLS (Prehospital Trauma Life Support)** — *Atendimento Pré-hospitalar ao Traumatizado* (NAEMT/Elsevier). Referência para controle de hemorragias, choque e imobilizações.
- **Hesperian Health Guides** — *Where There Is No Doctor* (Werner, D.) e *Where Women Have No Doctor* (Burns, A. et al.). Essenciais para parto e saúde da mulher em ambientes sem médico.
- **Cruz Vermelha Brasileira** — *Manual de Primeiros Socorros*.
- **Ministério da Saúde** — *Guia de Vigilância em Saúde* (doenças de notificação).
- **OMS** — *Managing Complications in Pregnancy and Childbirth* (Guia para manejo de complicações obstétricas).

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